Não, senhores. Não pretendo que esta seja a minha última aparição por aqui, pelo contrário. Não estranhem o título do post, nada tem a haver com isso. Mas, afinal, sobre o que ele quer dizer? Ah, vocês nem acreditariam se eu apenas dissesse! Finalmente, depois de tanto tempo, consegui terminar uma de minhas curtas histórias! Meu coração exulta entre a alegria e a tristeza! O que mais poderei dizer? Está terminada!
Entre Livros
A teimosia rendeu frutos, sua mãe acabou por levá-la à livraria da Rua das Figueiras desde que ela, como prometido, esperasse até sua volta do mercado. A mãe disse também, além de todos os avisos para ter cuidado e outros mais, que não demoraria muito.
Mas, de nada dera certeza absoluta e a pequena sabia que ela não cumpriria o que havia dito, e se demoraria a voltar a vê-la. Tanto importava. Desde que pudesse comprar o livro onde lera aquele primeiro nostalgiante parágrafo. Estava ótimo.
Entrou na livraria, deu para ouvir o tilintar do sino ao alto da porta, avisando mais uma cliente, apesar de toda a sua distração. Virou para a vitrine envidraçada e viu sua mãe ir embora. Parou por um momento, suspirou, entregou-se.
Correu entre as prateleiras e prateleiras, e sentiu o cheiro do café que o balconista tomava passar flutuando pelo ar. Foi verificando à procura do livro.
Começando pelas estantes de tema Drama, ela esticou-se a fim de enxergar até a última das prateleiras, e depois se abaixou até procurar pelas primeiras. Acabou por se resolver pelas estantes denominadas Suspense, mesmo não tendo certeza do que o livro se tratava.
E passou uns minutos assim, pesquisando nas estantes, pulando de tema em tema. Havia ainda a chance de o livro estar separado, em algum outro dormido lugar, algum lugar para livros mais antigos, coisa que ele era.
Ela levou o dedo à boca, mordeu de leve e tentou calcular melhor onde poderia estar, já nem sabia onde estava si mesma. Remexeu seus cabelos. E ele, onde, então?
Caminhou por mais corredores de uma madeira escura, negra, e que não rangiam. Chãos de madeira costumam a ranger. Tamborilou os dedos nas estantes, assobiou chamando pelo livro. Virou-se de costas e deu de cara com um jovem.
O jovem vestia uma calça jeans e uma blusa social esverdeada, clara, de mangas compridas e presa dentro da calça, formando uns gomos fofos junto do corpo dele. Tinha também um avental verde musgo, longo o bastante para bater nos seus joelhos, o que não era lá muita coisa já que ele era baixo. E o que dava um toque final, uma moldura tortuosamente postada, eram seus óculos retangulares e escorregando por seu nariz ligeiramente alongado.
Ele sorriu macio e perguntou se poderia ajudar.
A garota agradeceu e clamou mais uma vez pelo livro perdido, por favor.
Ele pediu que ela o seguisse.
Os dois se puseram a cruzar mais corredores negros e que cheiravam a café um pouco passado.
No fim, o bibliotecário, que não era o balconista tomador de cafés, e, inclusive, era novo lá, tinha chegado aonde a menina cogitara que o livro poderia estar. A uma grande estante, idêntica às outras brutas e discrepantes, apenas uma pitada maior que elas. Era onde ficava guardada uma coleção de livros antigos, estes que davam destaque ao nome daquela livraria das Figueiras entre os das outras.
A única na cidade com um número significante de livros antigos, livros que diziam se datar da mesma época em que aquelas retorcidas árvores, que decoravam a rua e seu nome, eram jovens. Uma boa fama.
Eles repousaram o olhar nos livros e ela soltou um sorriso de satisfação ao sentir o cheiro empoeirado e doce da conservação daquela discernida estante. Falando algo baixinho como “deixe me ver”, o rapaz colocou-se a fazer o mesmo que a garota.
Distendeu até a última, e permitiu a seus olhos escorrerem até a primeira prateleira.
Apontou mentalmente para cada um dos livros e procurou entre seus títulos e suas laterais aquele especial. Havia os limpado não fazia mais que uma semana e o tinha visto por lá.
Então, a menina o viu encarapitar-se e puxar um livro de uma das prateleiras mais altas. Era aquele o livro que procurava, o jovem entregou em segurança às suas mãos e os dois sorriram.
A garota demorou um pouco para agradecer, ficou observando a capa dura e acinzentada do livro, mas não se esqueceu de agradecer. Não poderia. O jovem fez uma mesura e virou um corredor, sumindo de seu olhar, olhar que havia resolvido se demorar nele. Ela sentiu, por um instante insano, uma estranha atração e curiosidade pelo rapaz, entretanto, não só permitiu como achou melhor que a atração se dissipasse.
Voltou à capa acinzentada, abriu e reviveu as encenações da contadora de histórias, misteriosa e revirante, daquele livro.
Primeiro, ficou ali, de pé, lendo os parágrafos.
Um pouco depois, encontrou apoio numa das fatias de madeira perto dela, encostou-se e continuou lendo.
Quase que uma hora passada, havia se sentado no chão, e de pernas cruzadas lia o livro, focada.
O jovem veio novamente, dando o ar de sua graça, atiçando os olhos da garota. Ela levantou a cabeça, quando ouviu o soar dos sapatos de couro no chão, e viu sua mágica figura ali. Ele só sorriu. E perguntou se queria alguma outra ajuda.
Ela estava no chão há mais de uma hora.
Só poderia precisar de mais algo. Não?
Não, mas foi o que o jovem achou. Ela explicou que esperava por sua mãe para pagar o livro, ele compreendeu e silenciou-se. Os dois se silenciaram e a garota fechou o livro, pregando o número das páginas com o indicador, vagava do livro para o bibliotecário e do bibliotecário para o livro. Vice e versa até se completarem sessenta segundos.
Resolveu juntar umas palavras, formar uma frase e entregá-la a garota, foi o que o bibliotecário fez. Ele falou a ela que já lera aquele livro, e gostara muito. Os dois entraram em concordância e se calaram mais uma oportuna vez. Ele checou o relógio que pendia em seu pulso com um olhar amargo, e informou à garota algo mais amargo ainda.
A livraria fecharia em questão de cinco minutos.
A garota se exaltou e arregalou os olhos, sua mãe ainda não havia chegado. Mesmo? Eles atravessaram a livraria em direção à porta. E ela ficou ali parada, observando pela vitrine.
A espera não foi muito construtiva: sempre que alguma pessoa passava, ela esticava-se, mas nenhumas daquelas fora a sua mãe. Duraram cinco minutos.
O jovem foi até seu lado e perguntou se havia alguma notícia da sua mãe. Ela negou tristemente, queria tanto levar o livro, e sua ânsia aumentava a cada parágrafo. Ele reparou aquilo estampado no rosto da garota, saiu de perto dela e se dirigiu até o lustroso balcão onde ainda estava o homem que gostava de café, tomando outra xícara pesada.
O homem entornou um grande e profundo gole, apoiou-se no balcão e bufou ao ver a figura da garota ainda parada à porta, no mesmo instante ela começou a observá-lo.
O bibliotecário endireitou os óculos numa bizarra preparação para falar com o balconista. Ela conseguiu pegar uns trechos da conversa que foi transmitida em sussurros, o jovem tentava desdobrar o balconista para poderem esperar mais alguns minutos.
Minutos suficientes para a mãe da garota chegar. Foi o que ele disse.
Ela se sentiu lisonjeada ao imaginar que ele estava tentando ajudar aquela pequena e humilde criatura. Sentiu-se lisonjeada, se sentiu corar.
Sorrindo, aproximou-se para mais uma calorosa aparição. Como ele mesmo disse, tinha boas novas, ela poderia esperar mais alguns minutos pela mãe. Entretanto “mais alguns minutos” fora tudo que conseguira, o balconista estava sonolento e aborrecido, mesmo com toda aquela cafeína, e não permitiria muito mais para fechar a livraria.
Ela ficou grata e demonstrou aquilo com as palavras que conseguiu, não muitas. Duas: “muito obrigada”. Para ele, foi o suficiente. E para ela, os minutos também.
Para o livro, não.
Quinze minutos foi o tempo que o homem deu. Apenas quinze nada a mais. Ele se aproximou da dupla que esperava ansiosamente, seus cabelos compridos e negros esvoaçaram-se quando levou a garota para a porta aberta, desculpou-se e disse que ela poderia comprar o livro no dia seguinte, puxou a capa da mão dela.
O bibliotecário observou a garota, deslocada, cruzar a rua e sentar num banco. Ele a observou com uma expressão infeliz, depois o balconista o pôs a trabalhar para fechar a loja. E ele não pode mais observar a garota deslocada.
Ela, por sua vez, concentrava sua mente no livro, e no momento em que o fora tirado dela. Ainda conseguia sentir as folhas castigadas pelo tempo, conseguia ver aquele tom de cinza. E como o balconista as deslizara de suas mãos. Só conseguia, agora, lembrar do cheiro do café, em vez do da poeirenta conservação.
Uma brisa suave e gélida passava entre as folhas da figueira que estava bem acima da menina. Ela foi tornando-se sonolenta, e tornando a pequena também sonolenta. Era tarde, ela estava cansada de tanto esperar.
Apoiou-se no banco e deixou a noite levá-la.
Após ajudar o balconista a fechá-la, o rapaz de óculos tortos, agora sem seu avental verde, se viu deixando a livraria. Carregando uma sacola em sua mão esquerda, viu também o cruel homem ir embora e acenou para ele.
Trancou a porta da livraria com sua chave. Colocou a chave no bolso, e olhou para o outro lado da rua. Ela ainda estava lá, e para sua surpresa, cochilava encolhida no banco de mármore gélido.
Ele foi chegando perto dela, ouvindo o som plástico da sacola junto de seus tornozelos, e a observou bem de pertinho.
Ficaram assim, ele vislumbrava os cabelos e o rosto delicado, ela caia aos poucos em mais fases de sono, até ele perceber que deveria se apressar. Então, delicadamente, sacudiu um pouquinho a garota.
Ela se contorceu no banco, e perguntou o que era, entretanto, ela ainda dormia.
Ele levantou a sacola, entregou em suas mãos, a menina a agarrou cegamente e abraçou-se a ela.
“Para você.”, ele sussurrou.
Beijou sua testa, afastou-se dela. Olhou para os lados. Não havia ninguém. Afastou-se mais ainda, a ponto de já estar no meio da rua de paralelepípedos, virou e começou a caminhar.
O bibliotecário caminhou para longe dela, mas seus olhos não. Eles viram a garota se encolher mais ainda e abraçar a sacola, viram a mãe dela chegar ao longe. Depois, viram a mãe acordá-la. Viram a garota observar a sacola sem compreender o que ocorria. E a viram abraçar a sacola, com mais carinho do que quando dormia.
Seus olhos assistiram a tudo aquilo e contaram para ele. Ele sorriu maciamente, e sentiu o coração se apertar devagarzinho. Passou a olhar para frente, e seguiu sua vida.
Em todo o caminho para casa, a garota passou acordada, dentro do táxi que sacolejava nas ruas de paralelepípedos e de figueiras. Passou pensando em quem haveria dado a ela aquele livro.
Teria sido o balconista por se sentir arrependido por haver tirado-na da livraria?
Ou sua mãe fizera aquilo por puro prazer de deixá-la no suspense da história?
O jovem? Mas, por que ele faria aquilo? Por que compraria o livro para a garota com o seu dinheiro e o daria em troca de nada?
Ela não se lembrava de nada, nem de sussurros, nem de figuras se aproximando com barulhos plásticos. Só da afeição pelo bibliotecário de roupa verde e de seu sorriso macio. Mas, aos poucos a afeição seria esquecida. Por ela.
Não por ele. Ele, sim, se lembraria.
Só que, para o azar do rapaz, a garota só retornaria anos depois àquela livraria, de cabelos curtos e corpo crescido. Para o azar dele, ele não a identificaria. Para o azar dele, ele passaria o resto de suas noites sonhando com aquela pequena, sentindo a brisa daquela noite e o gosto da pele dela.
Fim.
A menina ainda lembra do sorriso macio, que vem de algum lugar.
Ah, senhores! Não sei se me alegro ou me decepciono! Como eu poderia imaginar que o primeiro final seria logo o dessa? Depois de terminá-la senti um gélido vazio e, meu coração, um aperto assim como sentiu o jovem rapaz da história ao abandonar a garota.
Talvez sejam assim que devem terminar todas as histórias. Porque, de certa forma, é sempre assim que elas terminam. Sem fim. E isso nos leva ao tema de minha próxima história: a Morte.
Muito obrigada!
Nameless; where is my cat?
Meu final feliz
domingo, 11 de novembro de 2007
Imaginado por Paula Guerra às 03:54 2 comentários
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