Uma troca

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Pela péssima história passada, aí está algo que espero melhorar meu conceito entre vocês. Ah, senhores, o meu dia tem se arrastado como o da pobre menina Joana. Queria tanto meu livrinho, também, para não chorar...:

Suplicante Solidão e as Criaturas Asmáticas
As velas bruxuleavam fazendo sombras na parede, naquela manhã, naquele dia fatídico.
E a chuva caia escassa, em pingos silenciosos e gelados.
Joana se esgueirava pelo corredor de pisos esfriados de sua casa.
Também não havia ninguém em casa, todos trabalhavam, ela estava em férias escolares e permaceria assim por mais um mês.
Uma goteira pingava insistentemente dentro da própria casa, na noite anterior a chuva fora acompanhada de trovões, trovoadas, tudo de que tinha direito. Inclusive um vento forte, culpado por Joana ter de passear pela casa segurando uma vela, pela falta de luz.
Sem muita demora, ela designou um potinho de cerâmica que guardava as jóias de sua mãe para segurar a vela por ela, já não agüentava mais sentir a cera quente brotar de junto ao fogo, escorrer e queimar lhe a mão.
Era uma manhã realmente vaga, não havia nada a ser feito, em especial, de interessante. Deu mais uns rodopios pela casa e atirou-se aos braços confortáveis do sofá, ela olhou para o relógio numa reza para as horas passarem assoviando, e não rastejando como gostavam de fazer. Queria companhia, calor humano, ela olhou para o relógio e suspirou.
Onze da manhã.
O dia passaria como um morto.
E as vozes seriam como as dele, mudas.
Passou-se um tempo com aquela garota tacada no sofá, na verdade, passou-se muito tempo. Os pensamentos dela vagavam entre os mais diversos assuntos, mas nada muito interessante de forma que é inútil descrevê-los, além do que tediante.
Joana prosseguiu sua dispersão no sofá.
Por mais alguns minutos.
Até seu pensamento passar muito longe dela, e perto de um livro de poesias.
Era um livro com qual Joana criara laços infindáveis, livro que seus pais haviam lhe dado, a pedidos de uma pessoa, e ela lera umas mil vezes, todas elas em momentos de suplicante solidão.
‘SS’, “Suplicante solidão”, traduzira para ela sua irmã adoentada. É, ele era um livro feito para as horas de ‘ss’.
Joana mal se lembrava de seus versinhos, há muito tempo havia deixado-o de lado, não pela falta de mais momentos como aqueles, mas, sim, por ter trocado o livro pelos lamúrios acompanhados das lágrimas.
Agora, o livro cochilava em algum lugar da casa. E sua irmã em algum lugar logo depois do rio que separa esse mundo do outro lado.
Ela sentiu uma pontada que a fez saltar e se sentar reta e firme no sofá, era mais um momento de ‘ss’. Era maior, era um dia de ‘ss’. Sentia falta da sua irmã pela primeira vez em dois meses, ela estava humanamente sozinha numa casa, a única coisa que a acompanhava era uma vela traiçoeira e queimante, e ela já não queria ser envergada pela vontade de chorar que segurara por tanto tempo.
Por muito tempo. Um tempo rasteiro.
Joana foi impulsionada, pegou a vela junto do pote de cerâmica que repousava no sofá. Iria reencontrar aquele livro. Apenas para não chorar.
Enquanto Joana se guiava somente pela intuição, checando os lugares em que imaginava estar o livro, duas criaturas deslizavam por um cômodo assoprando cochichos por seus lábios delgados. Falavam algo sobre um tal livro que queriam para brincar com uma pessoa.
As plumas que as seguiam fugiam de algumas velas para não incinerarem, e elas abriam um armário daquele cômodo deslizo e pegavam um livro, e levavam. Soltaram risadinhas, também sopradas, fazendo as duas parecerem seres asmáticos. Além de malignos, que desta vez realmente eram.
Esguia e rápida, Joana vasculhava todos os cantinhos de seu quarto, primeiro provável lugar onde poderia estar seu tesouro de rimas.
Remexia as prateleiras. Pegava um livro, passava os olhos por sua capa e o colocava de lado. Não era aquele.
Então, pegava outro.
Da capa ela se lembrava bem, era uma capa inesquecível e que havia isto tantas vezes. Pegue todas as lágrimas que Joana já havia chorado, divida o número por cinqüenta lágrimas, mais ou menos, aí estavam quantas vezes ela tinha visto a capa. Umas vinte. Não seria muito difícil se lembrar, e, sim, esquecer.
Era colorida com várias demãos de tinta. Muitas, todas heterogenias, cada uma sobressaltava da outra. Umas eram verde musgo, outras eram pretas, e, umas terceiras, vermelhas. Aqui e ali se via um respingo de tinta, assim como, aqui e ali, as tintas se misturavam formando um tom meio amarronzado. No topo, de branco, o título.
Pegou mais um livro da prateleira, esse era o último, olhou para sua capa. Nada de demãos de tinta, nada de respingos ou de título em branco. E o pôs de volta ao seu lugar.
As criaturas observavam Joana em sua caçada, com umas risadinhas, e com o livro escondido sob suas roupas-pele, umas coisas feito roupas pretas que saiam surgiam de suas peles descoloradas e iam indo e indo pelo ar até desaparecer. Uma delas soprou palavras, numa língua desconhecida, para a outra, as duas riram e a outra balançou sua cabeça afirmativamente.
Elas deslizaram até Joana, que agora remexia com a mesma série de movimentos outra prateleira, arfaram risadas asmáticas e cruelmente derrubaram todos os livros da prateleira sobre a cabeça da garota.
Ela cambaleou inerte a quem havia feito aquilo a ela e inerte a quase tudo ao seu redor. Cambaleou, girou e caiu. Quando recuperou sua consciência, cerca de um minuto depois, olhou ao seu redor e viu um monte formado pelos livros caídos junto dela.
Sentou-se devagar. Massageou a cabeça dolorida e olhou de novo para o monte. Espalhou-os pelo chão do quarto e analisou um por um, nenhum era aquele.
Nenhum.
E não demorou muito, digo, demorou sim, mas sejamos otimistas que nem parece tanto tempo assim, e foi concluído o inquérito do seu quarto. Que nenhum era aquele.
Descobriram suas mãos das roupas que desapareciam como fumaça naquele ar, e fizeram aquele conhecido movimento humano, o aperto de mão.
As duas criaturas. Criaturas asmáticas e sádicas. Apertaram suas mãos de dedos finos e canhestros. E de unhas compridas e esbranquiçadas, assim como ficam as nossas quando falta cálcio, e também quebradiças, como as nossas.
Com seu quarto já tendo sido revistado, desarrumado e arrumado novamente, Joana saiu levando consigo sua vela, e, como papagaios-de-pirata, as duas criaturas roçando em seus calcanhares. Ela ainda sentia o efeito da trapaça, sua cabeça ainda doía e a dor, ao invés de diminuir, parecia aumentar, por culpa dela resolveu tomar um remédio.
Marchou até a cozinha e deixou a vela em seu, agora, pote sobre a mesa.
Abriu as portas dos armários, desfez uma caixa de sapatos na mesa à procura de um remédio de vidrinho escuro. O vidro foi encontrado com excepcional facilidade, em contradição ao livro, Joana o abriu e pegou um copo. Encheu o copo com água, que futuramente não seria mais insípida, e depois pingou umas gotinhas do remédio na água.
Pingaram também umas em sua mão, ela se dispôs a lavá-las, nisso aqueles seres armavam outro trote.
Dessa vez quem ia era a outra coisa, ela chegou perto da mesa e do copo, pegou o vidrinho e deixou espirrar o líquido dentro do copo. Voltou a se postar junto da companheira, e, juntas, as duas assistiram à sua problemática diversão à custa dos outros.
Joana foi de volta à mesa com as mãos umedecidas, passou a mão no copo embebido de remédio, levantou-o e tirou um gole.
Foi uma questão de segundos.
De centésimos, talvez. Para ela cuspir todo aquele gole de volta ao copo.
Pois o remédio em sua quantidade normal já teria um gosto mais amargo que uns limões espremidos juntos, bom, e seu triplo? Era como arrancar a língua de Joana e trocá-la por um limão.
Então, acho que você já deve ter uma noção do que as criaturas fizeram.
Sim, elas riram mais.
E o que Joana fez.
Ela bebeu água, muita água.
E depois tomou o remédio, uma quantidade bem menor do que deveria ser, pois achava que ela tinha exagerado. No fim das contas remédio realmente não fez efeito nenhum.
Parte do Fim.

Sinceramente, não sei se fiz bem ou mal pelo título. Eu criei laços com as Criaturas Asmáticas, cruéis, divertidas, mórbidas e mortas. E também com o nome 'Suplicante Solidão'. Se tudo for de acordo com minha previsão, pretendo escrever umas curtas sobre os nomes que concederam o título a essa história.
E como poderia esquecer? Meu grande agradecimento, pela idéia original da história, uma garotinha que perde seu livro de poesias.:
Djan, amei esta idéia, simplesmente genial! Não sei você, mas fiquei satisfeita com o tosco resultado, espero que eu tenha feito bem. Ah, senhores! Esperemos pela parte dois!, tanto eu quanto vocês.