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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

~Estou me preparando para uma reforma, espero ir longe desta vez... Mas sinto que está faltando algo aqui.
Ando me extrapolando, ando andando e tropeçando, consecutivamente.
E não estou aqui para isto. Estou neste local estranho, envolvida por criaturas estranhas, para viver. Escrever.
Então, enquanto eu vou carregando os novos textos nas costas, aí vai um das antigas...

Um Caminho Para A Felicidade
Entrei no tal orfanato e fui recebido por uma senhora, já de aparente idade. Não me lembro de seu nome, como parte de minhas características está a de não conseguir guardar nomes em minha memória.
Ela sorriu, e abriu um pouco mais a porta para minha passagem e com um gesto leve me mostrou o caminho pelo qual seguiríamos. Por um corredor, entre portas indefiníveis e intermináveis, que nos conspiraria a chegar a uma sala intitulada “diretoria” com letras ranhosas e mal-feitas, começamos a andar.
Bem como a última a qual chegaríamos, todas as outras portas tinham números, escritos em letras que faziam parecer que havia sido com as unhas como haviam os gravado ali, era uma fonte tão trágica que me fez sentir um calafrio na espinha e agradecer a Deus por ter meus pais.
E por todo o caminho fiquei observando as paredes, na esperança de encontrar uma janela, todavia seriam as lâmpadas amareladas e foscas que dariam luz àquele corredor, um dentre muitos outros do orfanato, e as brechas das portas que trariam uma leve bufada de ar. Então, a senhora parou, dei-me conta de que o corredor finalmente tinha terminado. Estiquei a cabeça por cima da mulher e li, na porta, onde iríamos conversar sobre meu mais novo trabalho.
Na diretoria, ela explicou-me o que eu deveria fazer: alegrar os órfãos, como um irmão mais velho, e ajudá-la a entender os sentimentos deles (ela não fazia idéia da dor de não ter família e não sabia como criar uma para eles, foi o que ela mesma me disse). Ela sorriu, mais uma vez, e eu me senti obrigado a fazer o mesmo.

No final de um dos corredores, chegamos a uma porta carinhosamente apelidada de “parquinho”, ela pegou seu enorme molho de chaves e encontrou uma que se encaixava e abria a porta de maneira perfeita (faço questão de dizer que foi realmente um ato perfeito, porque eram tantas as chaves que eu me perderia e ficaria horas vagando com os dedos entre cada uma a fim de testá-las na tranca, vocês sabem, minha memória não grava muito bem chaves corretas para trancas corretas).
Para minha surpresa, o que me aguardava depois da porta “parquinho” não era um parque pobre, com uma grama morta e flores murchas, era um parque alegre com brinquedos novos em folha, grama bem cuidada e flores tão lindas a ponto de serem brilhantes. E todas as crianças sorriam e corriam, num pique-pega alucinante, digno de crianças daquela idade.
“Quando os órfãos estão aqui eles ficam tão alegres.”, ela falou com um largo sorriso cortando sua face.
“É, me parecem bem felizes.”, eu disse com um ar de quem tinha terminado seu trabalho (logo estaria saindo e voltando para casa, não pareciam precisar de minha ajuda!).
Seu sorriso foi embora e sua expressão se fechou. “Alegres, felizes não.”
Não entendi bem o que ela quis dizer com aquilo, não dava no mesmo dizer que estavam felizes e dizer que estavam alegres? Não, não dava. Dei de ombros e fingi compreender sua enigmática frase. Passei os olhos pelo parque, havia todo tipo de criança, negra, branca, alta, baixa, gorda, magra; com todo o tipo de cabelo, ruivo, castanho, loiro, preto; e todo o tipo de olho, puxado, grandes, brilhantes, vazios. Digo, não havia olhos vazios ali, apenas brilhantes e sonhadores; aos meus olhos, também brilhantes e sonhadores, só havia outros iguais aos meus.
Uma moça alta, negra e de cabelos encaracolados e longos, fez sinal para os órfãos sorrindo e dizendo: “Hora do lanche! Venham, tem bolo hoje!”, eles viraram os rostinhos quase ao mesmo tempo e correram alucinados em direção a uma porta, não a porta “parquinho”, mas a “refeitório”, faz sentido. Fiquei ali ao lado da diretora, me contendo para não correr junto deles (amo doces, amo sorvete, amo chocolate e, principalmente, amo bolo), observamos cada uma delas sair e, quando eu ia seguir a moça negra e alta que, agora, chamava a mim e a diretora, esta pediu para esperar.
“Calma, falta um.”
“Ahn?”
“Falta um órfão.”
Sim, eu havia entendido que faltava um órfão, mas o motivo da minha pergunta era: “ainda falta um órfão?”. Eu tinha certeza que todos tinham corrido para o bolo, tinha certeza! Entretanto, minha certeza não estava certa.
Uma garota, de uns catorze anos, aparentemente, surgiu de trás de uma grande macieira, segurando uma maçã numa mão e carregando um amontoado de livros na outra, eram muitos mesmo, mesmo, eles iam subindo, do seu braço esquerdo, na altura da cintura, até seu pescoço, todos com os mais variados temas: desde matemática e português básicos à física e psicologia avançadas.
“Temos um grande acervo de livros em nossa biblioteca.”, a mulher negra disse-me ao se postar ao nosso lado, olhei para ela, o que vale dizer que olhei para o alto, e pensei em dizer “é, e estão todos com ela, não?”.
Então, quando a garota dos livros saiu dali para o refeitório, recebi um sinal positivo da diretora para seguir em frente. Entramos numa grande sala, cheia de grandes janelas, com mesas em estilo piquenique, mesas grandes e compridas com bancos grandes e compridos seguindo-as, obedientes. Nas mesas havia grandes jarras de suco, grandes bolos, grandes baguetes. Todo o salão fora trabalhado num tamanho descomunal e desproporcional àquelas crianças.
“Temos grandes salas.”, a mulher negra disse, orgulhosa.
A diretora nos levou à uma mesinha, grande, mas pequena em comparação ao resto, e nos sentamos juntos de outros empregados do lugar. Ela disse que também era hora de nosso lanche, e eu quase pulei para pegar os bolos, porém meu bom senso prevaleceu e peguei uma pequena fatia, a princípio, claro.
“Meu rapaz, você aprecia bolo, não?”, perguntou-me um senhor de bigodes em estilo de cowboy e brancos, com um chapéu de cozinheiro, que estava sentado logo ao lado da diretora “Pode quebrar a boa educação e pegar o quanto quiser!”, e, com isso, partiu um pedaço grande de bolo para mim e me entregou.
“Você é o garotinho que veio trabalhar aqui como psicólogo?”, uma moça de cabelos ruivos e bochechas rosadas em frente a mim perguntou.
Fiz que sim com a cabeça, já que a boca estava ocupada com bolo e suco.
Ela sorriu, “As crianças precisam de um irmão mais velho.”. E, antes que eu pudesse engolir o bolo para dizer algo quaisquer que fosse, ela continuou: “Sou a faxineira, não é um trabalho tão interessante quanto ser psicóloga como você, mas...” E, quando eu tinha engolido bolo e estava prestes a citar a frase que me vinha à mente, ela prosseguiu: “mas temos muitas salas, muitas, de todo o tipo e temos, também, tudo quanto é pano para limpar cada uma delas, é, tudo quanto é tipo!”
“É verdade, e são bem grandes as salas.”, disse a mulher negra.
“Muitas.”
“Grandes.”
“Muitas salas e grandes salas.”, falou, agora, um homem de cabelos pretos e rosto pálido como se unisse os pensamentos em separato das duas.
“É, isso mesmo!”, as duas falaram ao mesmo tempo e, os três apertaram as mãos, pareciam irmãos.
Houve um silêncio, é claro se você não levar em conta a balburdia das vozes infantis brindando o lanche, eu continuei a comer bolo e a beber suco alucinadamente, como se o silêncio, entre os presentes apenas naquela mesa, me pressionasse e tivesse de comer mais.
“Somos todos uma grande família, e espero que o senhor se una à família.”, pronunciou, por fim, a senhora. Todos sorriram em concordância. “Está na hora.”
E, com esse aviso, a moça negra se levantou e falou que as crianças que houvessem terminado poderiam voltar ao parque. Os empregados também se retiraram da mesa, deixando a mim e a diretora sozinhos ali, observando cada criança, que terminava o lanche, sair.
“Só falta um.”
E vimos, novamente, a garota dos livros caminhar de volta ao parquinho, ainda com a maçã, intacta, na mão. A diretora falou que iria fazer uns trabalhos e voltaria mais tarde e que as crianças já sabiam de minha chegada, avisados pela mulher negra, e, logo, eu poderia começar o meu trabalho quando bem entendesse. Ela se levantou e se foi por um corredor que saia do salão em direção a... Algum lugar por uma das portas pesadas.
Então, para poder me unir à família do orfanato, resolvi começar meu trabalho o mais rápido possível.
Olhei para a macieira e lá estava ela, mergulhada entre os livros, era a única coisa que não sorria naquele lugar (até os dentes-de-leão sorriam, se esbanjando.), aquilo me deixou curioso, e a curiosidade me atiça demais. Resolvi ir até ela. Sentei-me ao seu lado e disse um “olá” sorridente, parecendo ser simpático, o que talvez eu não seja, pois ela nem olhou para mim, apenas retribuiu o cumprimento e me ignorou.
Silêncio (não leve em consideração o barulho das crianças correndo pelo parquinho, obrigado.).
“Você está triste com alguma coisa?”, arrisquei uma pergunta. A resposta, bem provavelmente seria que sim.
Os dentes-de-leão, sorrindo, ela ali, lendo, e eu, esperando.
“Tristeza, né?”, ela rebateu com uma pergunta, contraditória aos meus pensamentos.
“É, tristeza.”
Ela virou o rosto para mim, franzindo o cenho, como se eu estivesse falando algo errado. Voltou a olhar para os livros e disse: “Eu não sei o que é isso.”
Mas aquela frase não teve um ar egocêntrico. Era como se ela realmente não soubesse o que é tristeza.
“Tristeza é o inverso da felicidade, é o que diz nesses livros. Mas continuo sem saber o que é isso. Vai ver porque não sei o que é essa ‘felicidade’ que eles comentam.”, continuou sem me esperar.
Achei a garota esperta, deveria estar filosofando sobre a vida, a morte e todo mundo que nos cerca. Deveria ser uma curiosa e estudiosa do tempo, por isso resolvi tentar lhe explicar, ao meu ver, o que era felicidade:
“Felicidade é o que seus amigos estão sentindo, o que os fazem sorrir e o que os animam a brincar.”
Ela levantou os olhos, viu as crianças no parquinho. Seus olhos giraram de confusão, algo estava errado.
“Eles estão sorrindo, né?”
“É, estão.”, respondi com uma risadinha até. Era mais do que claro que todas estavam sorrindo.
Mas ela franziu o cenho de novo, voltando a me observar, como se eu tivesse dito algo mais errado ainda.
“Não estou vendo. Sorriso é quando seus lábios estão formando uma meia-lua com concavidade para cima, né?”
Aquela foi uma frase estranha, ela estava atribuindo objetos, figuras geométricas, a um simples sorriso, ela estava fazendo do sorriso uma coisa feia e triste. Tremi, sentindo um pouco de repulsa pelo jeito como ela falara, e senti-me instigado em contestar seu pensamento, em explicar profundamente o que era um sorriso, porém, parei naquele instante, se eu lhe dissesse, ela compreenderia? Estava começando a hesitar. Será que ela era, como eu havia intitulado, uma estudiosa do tempo ou simplesmente, realmente, não sabia o que era felicidade e tristeza? Nem discerni-las?
“É exatamente isso.”
“Mas os lábios deles estão formando uma concavidade para baixo, eles estão...”
Ela esperava que eu completasse sua frase.
“Tristes? Eu tenho certeza de que estão felizes.”
Eu quem franzia o cenho, agora. Então, ela se pôs sentada ao meu lado, largando os livros, que antes segurava, pelo chão.
“Olhe bem.”, e ela colocou as mãos em minhas têmporas e virou meu rosto em direção às crianças correndo.
De repente a paisagem se transformou, não havia mais flores brilhantes, nem grama bem cuidada e a macieira em que estávamos sentados aos pés também se transformou. Tudo virou uma paisagem mórbida e fria, senti uma pontada no coração e um aperto ao olhar para os rostos das crianças, elas corriam enquanto brincavam, mas não sorriam, elas quase choravam. E, quando a garota tirou as mãos do meu rosto, a paisagem voltou a ser alegre e viva, eu olhei para ela, assustado, pedindo claramente uma explicação.
“Aqui fora”, ela começou, “como é arejado, essa coisa que os humanos, chamam de tristeza se perde pelo ar e vocês, os com pais e família, não conseguem enxergá-la claramente. O mesmo acontece com o refeitório, que é bem iluminado pelas grandes janelas. Já lá dentro,”, e ela apontou para a porta que levava aos emaranhados corredores, “que é fechado e frio, essa coisa fica presa e é vista com perfeição.”
Depois de ela ter comentado sobre o lado de dentro do orfanato lembrei-me que ela tinha razão, as milhares de portas, os corredores sufocantes e perdidos, o ar meio morto. Mas, não era possível, a tristeza não era algo palpável, nem subia pelo ar, evaporando, muito menos podia se incrustar nas coisas como ela falara. Ou, será que podia?
Fiquei chocado. Aquilo ia contra tudo que eu aprendera, eu não acreditava no que tinha visto, e, só de recordar a paisagem que vira, sentia vontade de chorar. Ir embora e chorar, era isto o que mais ansiava naquele momento. No entanto, uma pergunta me veio à mente, algo que me impediu de sair daquele lugar.
“Você os vê assim...”, olhei para a garota que tornara a se enfornar entre, agora, um livro de Astronomia. Ela aquiesceu sem nem tirar o rosto do livro. “Mas...”
Antes que eu seguisse minha frase, ela já estava concordando mais uma vez, balançando o rosto firme e rapidamente para cima e para baixo. Ela fechou o livro, colocando antes um pano de seda no meio, como marcador de páginas, batendo com força as páginas de uma metade contra as da outra.
O que houve depois me deixou ainda mais perplexo.
A garota levantou seu rosto para mim, e com os olhos e todo o rosto banhado por lágrimas, seu nariz escorrendo, disse:
“O tempo todo...”
E com isso foi embora correndo levando apenas aquele livro com o lenço e a maçã, largando todas as outras coisas por ali, inclusive eu.
Fim