Meu final feliz

domingo, 11 de novembro de 2007

Não, senhores. Não pretendo que esta seja a minha última aparição por aqui, pelo contrário. Não estranhem o título do post, nada tem a haver com isso. Mas, afinal, sobre o que ele quer dizer? Ah, vocês nem acreditariam se eu apenas dissesse! Finalmente, depois de tanto tempo, consegui terminar uma de minhas curtas histórias! Meu coração exulta entre a alegria e a tristeza! O que mais poderei dizer? Está terminada!

Entre Livros
A teimosia rendeu frutos, sua mãe acabou por levá-la à livraria da Rua das Figueiras desde que ela, como prometido, esperasse até sua volta do mercado. A mãe disse também, além de todos os avisos para ter cuidado e outros mais, que não demoraria muito.
Mas, de nada dera certeza absoluta e a pequena sabia que ela não cumpriria o que havia dito, e se demoraria a voltar a vê-la. Tanto importava. Desde que pudesse comprar o livro onde lera aquele primeiro nostalgiante parágrafo. Estava ótimo.
Entrou na livraria, deu para ouvir o tilintar do sino ao alto da porta, avisando mais uma cliente, apesar de toda a sua distração. Virou para a vitrine envidraçada e viu sua mãe ir embora. Parou por um momento, suspirou, entregou-se.
Correu entre as prateleiras e prateleiras, e sentiu o cheiro do café que o balconista tomava passar flutuando pelo ar. Foi verificando à procura do livro.
Começando pelas estantes de tema Drama, ela esticou-se a fim de enxergar até a última das prateleiras, e depois se abaixou até procurar pelas primeiras. Acabou por se resolver pelas estantes denominadas Suspense, mesmo não tendo certeza do que o livro se tratava.
E passou uns minutos assim, pesquisando nas estantes, pulando de tema em tema. Havia ainda a chance de o livro estar separado, em algum outro dormido lugar, algum lugar para livros mais antigos, coisa que ele era.
Ela levou o dedo à boca, mordeu de leve e tentou calcular melhor onde poderia estar, já nem sabia onde estava si mesma. Remexeu seus cabelos. E ele, onde, então?
Caminhou por mais corredores de uma madeira escura, negra, e que não rangiam. Chãos de madeira costumam a ranger. Tamborilou os dedos nas estantes, assobiou chamando pelo livro. Virou-se de costas e deu de cara com um jovem.
O jovem vestia uma calça jeans e uma blusa social esverdeada, clara, de mangas compridas e presa dentro da calça, formando uns gomos fofos junto do corpo dele. Tinha também um avental verde musgo, longo o bastante para bater nos seus joelhos, o que não era lá muita coisa já que ele era baixo. E o que dava um toque final, uma moldura tortuosamente postada, eram seus óculos retangulares e escorregando por seu nariz ligeiramente alongado.
Ele sorriu macio e perguntou se poderia ajudar.
A garota agradeceu e clamou mais uma vez pelo livro perdido, por favor.
Ele pediu que ela o seguisse.
Os dois se puseram a cruzar mais corredores negros e que cheiravam a café um pouco passado.
No fim, o bibliotecário, que não era o balconista tomador de cafés, e, inclusive, era novo lá, tinha chegado aonde a menina cogitara que o livro poderia estar. A uma grande estante, idêntica às outras brutas e discrepantes, apenas uma pitada maior que elas. Era onde ficava guardada uma coleção de livros antigos, estes que davam destaque ao nome daquela livraria das Figueiras entre os das outras.
A única na cidade com um número significante de livros antigos, livros que diziam se datar da mesma época em que aquelas retorcidas árvores, que decoravam a rua e seu nome, eram jovens. Uma boa fama.
Eles repousaram o olhar nos livros e ela soltou um sorriso de satisfação ao sentir o cheiro empoeirado e doce da conservação daquela discernida estante. Falando algo baixinho como “deixe me ver”, o rapaz colocou-se a fazer o mesmo que a garota.
Distendeu até a última, e permitiu a seus olhos escorrerem até a primeira prateleira.
Apontou mentalmente para cada um dos livros e procurou entre seus títulos e suas laterais aquele especial. Havia os limpado não fazia mais que uma semana e o tinha visto por lá.
Então, a menina o viu encarapitar-se e puxar um livro de uma das prateleiras mais altas. Era aquele o livro que procurava, o jovem entregou em segurança às suas mãos e os dois sorriram.
A garota demorou um pouco para agradecer, ficou observando a capa dura e acinzentada do livro, mas não se esqueceu de agradecer. Não poderia. O jovem fez uma mesura e virou um corredor, sumindo de seu olhar, olhar que havia resolvido se demorar nele. Ela sentiu, por um instante insano, uma estranha atração e curiosidade pelo rapaz, entretanto, não só permitiu como achou melhor que a atração se dissipasse.
Voltou à capa acinzentada, abriu e reviveu as encenações da contadora de histórias, misteriosa e revirante, daquele livro.
Primeiro, ficou ali, de pé, lendo os parágrafos.
Um pouco depois, encontrou apoio numa das fatias de madeira perto dela, encostou-se e continuou lendo.
Quase que uma hora passada, havia se sentado no chão, e de pernas cruzadas lia o livro, focada.
O jovem veio novamente, dando o ar de sua graça, atiçando os olhos da garota. Ela levantou a cabeça, quando ouviu o soar dos sapatos de couro no chão, e viu sua mágica figura ali. Ele só sorriu. E perguntou se queria alguma outra ajuda.
Ela estava no chão há mais de uma hora.
Só poderia precisar de mais algo. Não?
Não, mas foi o que o jovem achou. Ela explicou que esperava por sua mãe para pagar o livro, ele compreendeu e silenciou-se. Os dois se silenciaram e a garota fechou o livro, pregando o número das páginas com o indicador, vagava do livro para o bibliotecário e do bibliotecário para o livro. Vice e versa até se completarem sessenta segundos.
Resolveu juntar umas palavras, formar uma frase e entregá-la a garota, foi o que o bibliotecário fez. Ele falou a ela que já lera aquele livro, e gostara muito. Os dois entraram em concordância e se calaram mais uma oportuna vez. Ele checou o relógio que pendia em seu pulso com um olhar amargo, e informou à garota algo mais amargo ainda.
A livraria fecharia em questão de cinco minutos.
A garota se exaltou e arregalou os olhos, sua mãe ainda não havia chegado. Mesmo? Eles atravessaram a livraria em direção à porta. E ela ficou ali parada, observando pela vitrine.
A espera não foi muito construtiva: sempre que alguma pessoa passava, ela esticava-se, mas nenhumas daquelas fora a sua mãe. Duraram cinco minutos.
O jovem foi até seu lado e perguntou se havia alguma notícia da sua mãe. Ela negou tristemente, queria tanto levar o livro, e sua ânsia aumentava a cada parágrafo. Ele reparou aquilo estampado no rosto da garota, saiu de perto dela e se dirigiu até o lustroso balcão onde ainda estava o homem que gostava de café, tomando outra xícara pesada.
O homem entornou um grande e profundo gole, apoiou-se no balcão e bufou ao ver a figura da garota ainda parada à porta, no mesmo instante ela começou a observá-lo.
O bibliotecário endireitou os óculos numa bizarra preparação para falar com o balconista. Ela conseguiu pegar uns trechos da conversa que foi transmitida em sussurros, o jovem tentava desdobrar o balconista para poderem esperar mais alguns minutos.
Minutos suficientes para a mãe da garota chegar. Foi o que ele disse.
Ela se sentiu lisonjeada ao imaginar que ele estava tentando ajudar aquela pequena e humilde criatura. Sentiu-se lisonjeada, se sentiu corar.
Sorrindo, aproximou-se para mais uma calorosa aparição. Como ele mesmo disse, tinha boas novas, ela poderia esperar mais alguns minutos pela mãe. Entretanto “mais alguns minutos” fora tudo que conseguira, o balconista estava sonolento e aborrecido, mesmo com toda aquela cafeína, e não permitiria muito mais para fechar a livraria.
Ela ficou grata e demonstrou aquilo com as palavras que conseguiu, não muitas. Duas: “muito obrigada”. Para ele, foi o suficiente. E para ela, os minutos também.
Para o livro, não.
Quinze minutos foi o tempo que o homem deu. Apenas quinze nada a mais. Ele se aproximou da dupla que esperava ansiosamente, seus cabelos compridos e negros esvoaçaram-se quando levou a garota para a porta aberta, desculpou-se e disse que ela poderia comprar o livro no dia seguinte, puxou a capa da mão dela.
O bibliotecário observou a garota, deslocada, cruzar a rua e sentar num banco. Ele a observou com uma expressão infeliz, depois o balconista o pôs a trabalhar para fechar a loja. E ele não pode mais observar a garota deslocada.
Ela, por sua vez, concentrava sua mente no livro, e no momento em que o fora tirado dela. Ainda conseguia sentir as folhas castigadas pelo tempo, conseguia ver aquele tom de cinza. E como o balconista as deslizara de suas mãos. Só conseguia, agora, lembrar do cheiro do café, em vez do da poeirenta conservação.
Uma brisa suave e gélida passava entre as folhas da figueira que estava bem acima da menina. Ela foi tornando-se sonolenta, e tornando a pequena também sonolenta. Era tarde, ela estava cansada de tanto esperar.
Apoiou-se no banco e deixou a noite levá-la.
Após ajudar o balconista a fechá-la, o rapaz de óculos tortos, agora sem seu avental verde, se viu deixando a livraria. Carregando uma sacola em sua mão esquerda, viu também o cruel homem ir embora e acenou para ele.
Trancou a porta da livraria com sua chave. Colocou a chave no bolso, e olhou para o outro lado da rua. Ela ainda estava lá, e para sua surpresa, cochilava encolhida no banco de mármore gélido.
Ele foi chegando perto dela, ouvindo o som plástico da sacola junto de seus tornozelos, e a observou bem de pertinho.
Ficaram assim, ele vislumbrava os cabelos e o rosto delicado, ela caia aos poucos em mais fases de sono, até ele perceber que deveria se apressar. Então, delicadamente, sacudiu um pouquinho a garota.
Ela se contorceu no banco, e perguntou o que era, entretanto, ela ainda dormia.
Ele levantou a sacola, entregou em suas mãos, a menina a agarrou cegamente e abraçou-se a ela.
“Para você.”, ele sussurrou.
Beijou sua testa, afastou-se dela. Olhou para os lados. Não havia ninguém. Afastou-se mais ainda, a ponto de já estar no meio da rua de paralelepípedos, virou e começou a caminhar.
O bibliotecário caminhou para longe dela, mas seus olhos não. Eles viram a garota se encolher mais ainda e abraçar a sacola, viram a mãe dela chegar ao longe. Depois, viram a mãe acordá-la. Viram a garota observar a sacola sem compreender o que ocorria. E a viram abraçar a sacola, com mais carinho do que quando dormia.
Seus olhos assistiram a tudo aquilo e contaram para ele. Ele sorriu maciamente, e sentiu o coração se apertar devagarzinho. Passou a olhar para frente, e seguiu sua vida.
Em todo o caminho para casa, a garota passou acordada, dentro do táxi que sacolejava nas ruas de paralelepípedos e de figueiras. Passou pensando em quem haveria dado a ela aquele livro.
Teria sido o balconista por se sentir arrependido por haver tirado-na da livraria?
Ou sua mãe fizera aquilo por puro prazer de deixá-la no suspense da história?
O jovem? Mas, por que ele faria aquilo? Por que compraria o livro para a garota com o seu dinheiro e o daria em troca de nada?
Ela não se lembrava de nada, nem de sussurros, nem de figuras se aproximando com barulhos plásticos. Só da afeição pelo bibliotecário de roupa verde e de seu sorriso macio. Mas, aos poucos a afeição seria esquecida. Por ela.
Não por ele. Ele, sim, se lembraria.
Só que, para o azar do rapaz, a garota só retornaria anos depois àquela livraria, de cabelos curtos e corpo crescido. Para o azar dele, ele não a identificaria. Para o azar dele, ele passaria o resto de suas noites sonhando com aquela pequena, sentindo a brisa daquela noite e o gosto da pele dela.
Fim.
A menina ainda lembra do sorriso macio, que vem de algum lugar.


Ah, senhores! Não sei se me alegro ou me decepciono! Como eu poderia imaginar que o primeiro final seria logo o dessa? Depois de terminá-la senti um gélido vazio e, meu coração, um aperto assim como sentiu o jovem rapaz da história ao abandonar a garota.
Talvez sejam assim que devem terminar todas as histórias. Porque, de certa forma, é sempre assim que elas terminam. Sem fim. E isso nos leva ao tema de minha próxima história: a Morte.
Muito obrigada!

2 comentários:

Djan Krystlonc disse...

Vou ao PROCON!!!!!

Fui ludibriado, o que aconteceu anos depois???? Eu quero saber!!!!

A suposta história com final é a que mais precisa de continuação!!!

E cadê o comentário no fim? (ok sei que vc vai colocar porque já lhe falei pelo MSN, mas vou deixar aqui meu protesto!)


Mas sério, essa tem algo de diferente, não sei bem o quê, mas tem.

Beijos e esperando mais.

Thalita disse...

nhaain..

histórias sem final. são comos seriados sem próxima temporada. livros emprestados com prazo de devolução..

quero(emos) um final !

linda história.
parabéns.

beijos :*