O Desfibrilador

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

"Senhores, peço encarecidamente para que me passem o desfibrilador, antes que o paciente se vá!"
Ai, ai. "Reviveu!"
Depois de muito tempo, estou de volta. Não acho que sentiram falta, afinal, livros é o que não nos faltam por hoje! A mim, então, tenho uma dezena deles para ler!
Entretanto, eu senti falta de dar o meu ar desgraçado por aqui. Vejam só, neste meio tempo dei uma pequena mudada no template do meu blog. Agora, ele não é o "Et le Chat Noir?" e apenas isto, ele virou a versão de uma época, ele está numa estação que desejo ser época de colheita o ano todo. A estação, ou melhor, a versão "Breath.less".
A cada estação teremos a falta de alguma coisa, desta vez foi a respiração que sumiu, além de mim, é claro! Na próxima, veremos o que vai ser...
Mas, enquanto ela não chega, ficaremos com um texto daqueles meus. Vocês já conhecem a tortura.

A terra infinita

Enquanto todos olhavam para o horizonte com um olhar amedrontado, eu via nos olhos dele uma coragem e admiração motivada por um desejo que, para todos os outros, era extremamente insano.
Meu irmão sempre quis desbravar o mundo, eu respeitava muito suas idéias e ele era, sem dúvidas, o mais genial de todos os pensadores de nossa época. Num lugar em que a terra é dita infinita, onde os mares podem cair sobre nós e alagar nossas casas, um lugar em que Deus manda, é supremo e nós apenas meros pecadores, meu irmão quebrava todas as regras e fugia de suas próprias fronteiras.
Seu sonho sempre foi mostrar para os outros o poder que estava no solo no qual pisamos, e não nos céus, dormindo junto de anjos, e ele dizia que começaria apontando a todos que aquela mesma terra não seria infinita.
“A terra é redonda, mas não é infinita.”, ele falava. “É isso que vou provar, e mais, evidenciarei que não é Deus nem outro humano que faz qualquer importância para este lugar.”
Neste lugar, esta areia e todas estas árvores que vemos em nossas florestas sempre estiveram aqui, desde antes de nossos tataravôs nascerem e até nos morrermos eles continuarão aqui, os grãos de areia salpicando em nossos pés e as árvores imóveis e soberanas. Para ele o tempo de vida deste lugar era tão imenso, tão extenso e esticado, que pouco importava para ele nossa existência e o que faríamos, de forma que nem Deus importava.
“Deus foi criado pelo homem, e junto dele desaparecerá. Ele é uma figura nossa, e não há de ter sido Ele quem teve a idéia de transformar as flores que desabrocham em frutas para comermos, toda santa estação. E, mesmo que tenha sido, Ele nunca teria a capacidade de criar uma terra infinita.”, e ele simplificava para mim, pequeno:
“Se Deus criou tudo, então, esta terra é finita. Mas, se esta terra for sem-fim, como nos dizem os velhos e os padres - hum, também muito velhos -, Deus não é o nosso todo poderoso, pois criar algo assim nenhum ser é capaz, principalmente se for este ser que age como nós e nos pune por sermos nós. Alguma dessas coisas tem de estar errada. Provarei isto.”
Então, num dia em pleno outono, meu irmão partiu. Com seus cálculos e dinheiro enfiados numa bolsa, suas roupas e comidas em outra, ele foi andando com duas bolsas debaixo de um braço. Chegou perto de mim, e com um rosto sereno, me abraçou. Eu pedi a ele que me levasse junto, andaríamos o mundo juntos e voltaríamos para casa, depois de toda a volta arredondada, como ele sonhava em fazer, dada. Bom, meu irmão estava certo, não poderia levar sob seu olhar uma criança de cinco anos, especialmente se o caminho que ela se via fadada a andar era o caminho de um nômade.
Mas, ele também não poderia ter deixado aquela criança, sozinha, na soleira de sua casa o observando ir embora. Ele não podia ter me deixado dizendo o quão minha existência era insignificante, ter me deixado esperando por algo que faria de mim maior, e esperando por ele.
“Um dia, eu voltarei, no entanto, não sinta saudades de mim. Esse tempo que passarei fora é insignificante comparado ao tempo de tudo, como nossa existência, não gaste a sua pequena pensando em mim, ou em alguém assim distante.”
A calça dele fez um suspiro, ao arrastar no chão da rua, chão em que poderia se arrastar por toda uma vida, ou uma eternidade, e se foi. Sua calça e meu irmão sabiam daquilo, eu naquela época não sabia que ele poderia morrer andando por aí. Foi minha mãe quem me disse esta verdade, quando eu já era um pouco mais velho e fazia o contrário do que meu irmão me falara, enquanto esperava por ele voltar sentado no tapete de nossa entrada.

Fim.

Bom, esta eu criei hoje mesmo, durante uma aulinha de Geografia. Nunca pensei que as frases do André fossem me inspirar, mas não é que elas me deram um empurrãozinho, mesmo? Como sempre, espero que tenham gostado e agradeço muito por lerem-na.
Muito obrigada!
Beijos!

Uma troca

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Pela péssima história passada, aí está algo que espero melhorar meu conceito entre vocês. Ah, senhores, o meu dia tem se arrastado como o da pobre menina Joana. Queria tanto meu livrinho, também, para não chorar...:

Suplicante Solidão e as Criaturas Asmáticas
As velas bruxuleavam fazendo sombras na parede, naquela manhã, naquele dia fatídico.
E a chuva caia escassa, em pingos silenciosos e gelados.
Joana se esgueirava pelo corredor de pisos esfriados de sua casa.
Também não havia ninguém em casa, todos trabalhavam, ela estava em férias escolares e permaceria assim por mais um mês.
Uma goteira pingava insistentemente dentro da própria casa, na noite anterior a chuva fora acompanhada de trovões, trovoadas, tudo de que tinha direito. Inclusive um vento forte, culpado por Joana ter de passear pela casa segurando uma vela, pela falta de luz.
Sem muita demora, ela designou um potinho de cerâmica que guardava as jóias de sua mãe para segurar a vela por ela, já não agüentava mais sentir a cera quente brotar de junto ao fogo, escorrer e queimar lhe a mão.
Era uma manhã realmente vaga, não havia nada a ser feito, em especial, de interessante. Deu mais uns rodopios pela casa e atirou-se aos braços confortáveis do sofá, ela olhou para o relógio numa reza para as horas passarem assoviando, e não rastejando como gostavam de fazer. Queria companhia, calor humano, ela olhou para o relógio e suspirou.
Onze da manhã.
O dia passaria como um morto.
E as vozes seriam como as dele, mudas.
Passou-se um tempo com aquela garota tacada no sofá, na verdade, passou-se muito tempo. Os pensamentos dela vagavam entre os mais diversos assuntos, mas nada muito interessante de forma que é inútil descrevê-los, além do que tediante.
Joana prosseguiu sua dispersão no sofá.
Por mais alguns minutos.
Até seu pensamento passar muito longe dela, e perto de um livro de poesias.
Era um livro com qual Joana criara laços infindáveis, livro que seus pais haviam lhe dado, a pedidos de uma pessoa, e ela lera umas mil vezes, todas elas em momentos de suplicante solidão.
‘SS’, “Suplicante solidão”, traduzira para ela sua irmã adoentada. É, ele era um livro feito para as horas de ‘ss’.
Joana mal se lembrava de seus versinhos, há muito tempo havia deixado-o de lado, não pela falta de mais momentos como aqueles, mas, sim, por ter trocado o livro pelos lamúrios acompanhados das lágrimas.
Agora, o livro cochilava em algum lugar da casa. E sua irmã em algum lugar logo depois do rio que separa esse mundo do outro lado.
Ela sentiu uma pontada que a fez saltar e se sentar reta e firme no sofá, era mais um momento de ‘ss’. Era maior, era um dia de ‘ss’. Sentia falta da sua irmã pela primeira vez em dois meses, ela estava humanamente sozinha numa casa, a única coisa que a acompanhava era uma vela traiçoeira e queimante, e ela já não queria ser envergada pela vontade de chorar que segurara por tanto tempo.
Por muito tempo. Um tempo rasteiro.
Joana foi impulsionada, pegou a vela junto do pote de cerâmica que repousava no sofá. Iria reencontrar aquele livro. Apenas para não chorar.
Enquanto Joana se guiava somente pela intuição, checando os lugares em que imaginava estar o livro, duas criaturas deslizavam por um cômodo assoprando cochichos por seus lábios delgados. Falavam algo sobre um tal livro que queriam para brincar com uma pessoa.
As plumas que as seguiam fugiam de algumas velas para não incinerarem, e elas abriam um armário daquele cômodo deslizo e pegavam um livro, e levavam. Soltaram risadinhas, também sopradas, fazendo as duas parecerem seres asmáticos. Além de malignos, que desta vez realmente eram.
Esguia e rápida, Joana vasculhava todos os cantinhos de seu quarto, primeiro provável lugar onde poderia estar seu tesouro de rimas.
Remexia as prateleiras. Pegava um livro, passava os olhos por sua capa e o colocava de lado. Não era aquele.
Então, pegava outro.
Da capa ela se lembrava bem, era uma capa inesquecível e que havia isto tantas vezes. Pegue todas as lágrimas que Joana já havia chorado, divida o número por cinqüenta lágrimas, mais ou menos, aí estavam quantas vezes ela tinha visto a capa. Umas vinte. Não seria muito difícil se lembrar, e, sim, esquecer.
Era colorida com várias demãos de tinta. Muitas, todas heterogenias, cada uma sobressaltava da outra. Umas eram verde musgo, outras eram pretas, e, umas terceiras, vermelhas. Aqui e ali se via um respingo de tinta, assim como, aqui e ali, as tintas se misturavam formando um tom meio amarronzado. No topo, de branco, o título.
Pegou mais um livro da prateleira, esse era o último, olhou para sua capa. Nada de demãos de tinta, nada de respingos ou de título em branco. E o pôs de volta ao seu lugar.
As criaturas observavam Joana em sua caçada, com umas risadinhas, e com o livro escondido sob suas roupas-pele, umas coisas feito roupas pretas que saiam surgiam de suas peles descoloradas e iam indo e indo pelo ar até desaparecer. Uma delas soprou palavras, numa língua desconhecida, para a outra, as duas riram e a outra balançou sua cabeça afirmativamente.
Elas deslizaram até Joana, que agora remexia com a mesma série de movimentos outra prateleira, arfaram risadas asmáticas e cruelmente derrubaram todos os livros da prateleira sobre a cabeça da garota.
Ela cambaleou inerte a quem havia feito aquilo a ela e inerte a quase tudo ao seu redor. Cambaleou, girou e caiu. Quando recuperou sua consciência, cerca de um minuto depois, olhou ao seu redor e viu um monte formado pelos livros caídos junto dela.
Sentou-se devagar. Massageou a cabeça dolorida e olhou de novo para o monte. Espalhou-os pelo chão do quarto e analisou um por um, nenhum era aquele.
Nenhum.
E não demorou muito, digo, demorou sim, mas sejamos otimistas que nem parece tanto tempo assim, e foi concluído o inquérito do seu quarto. Que nenhum era aquele.
Descobriram suas mãos das roupas que desapareciam como fumaça naquele ar, e fizeram aquele conhecido movimento humano, o aperto de mão.
As duas criaturas. Criaturas asmáticas e sádicas. Apertaram suas mãos de dedos finos e canhestros. E de unhas compridas e esbranquiçadas, assim como ficam as nossas quando falta cálcio, e também quebradiças, como as nossas.
Com seu quarto já tendo sido revistado, desarrumado e arrumado novamente, Joana saiu levando consigo sua vela, e, como papagaios-de-pirata, as duas criaturas roçando em seus calcanhares. Ela ainda sentia o efeito da trapaça, sua cabeça ainda doía e a dor, ao invés de diminuir, parecia aumentar, por culpa dela resolveu tomar um remédio.
Marchou até a cozinha e deixou a vela em seu, agora, pote sobre a mesa.
Abriu as portas dos armários, desfez uma caixa de sapatos na mesa à procura de um remédio de vidrinho escuro. O vidro foi encontrado com excepcional facilidade, em contradição ao livro, Joana o abriu e pegou um copo. Encheu o copo com água, que futuramente não seria mais insípida, e depois pingou umas gotinhas do remédio na água.
Pingaram também umas em sua mão, ela se dispôs a lavá-las, nisso aqueles seres armavam outro trote.
Dessa vez quem ia era a outra coisa, ela chegou perto da mesa e do copo, pegou o vidrinho e deixou espirrar o líquido dentro do copo. Voltou a se postar junto da companheira, e, juntas, as duas assistiram à sua problemática diversão à custa dos outros.
Joana foi de volta à mesa com as mãos umedecidas, passou a mão no copo embebido de remédio, levantou-o e tirou um gole.
Foi uma questão de segundos.
De centésimos, talvez. Para ela cuspir todo aquele gole de volta ao copo.
Pois o remédio em sua quantidade normal já teria um gosto mais amargo que uns limões espremidos juntos, bom, e seu triplo? Era como arrancar a língua de Joana e trocá-la por um limão.
Então, acho que você já deve ter uma noção do que as criaturas fizeram.
Sim, elas riram mais.
E o que Joana fez.
Ela bebeu água, muita água.
E depois tomou o remédio, uma quantidade bem menor do que deveria ser, pois achava que ela tinha exagerado. No fim das contas remédio realmente não fez efeito nenhum.
Parte do Fim.

Sinceramente, não sei se fiz bem ou mal pelo título. Eu criei laços com as Criaturas Asmáticas, cruéis, divertidas, mórbidas e mortas. E também com o nome 'Suplicante Solidão'. Se tudo for de acordo com minha previsão, pretendo escrever umas curtas sobre os nomes que concederam o título a essa história.
E como poderia esquecer? Meu grande agradecimento, pela idéia original da história, uma garotinha que perde seu livro de poesias.:
Djan, amei esta idéia, simplesmente genial! Não sei você, mas fiquei satisfeita com o tosco resultado, espero que eu tenha feito bem. Ah, senhores! Esperemos pela parte dois!, tanto eu quanto vocês.

Meu final feliz

domingo, 11 de novembro de 2007

Não, senhores. Não pretendo que esta seja a minha última aparição por aqui, pelo contrário. Não estranhem o título do post, nada tem a haver com isso. Mas, afinal, sobre o que ele quer dizer? Ah, vocês nem acreditariam se eu apenas dissesse! Finalmente, depois de tanto tempo, consegui terminar uma de minhas curtas histórias! Meu coração exulta entre a alegria e a tristeza! O que mais poderei dizer? Está terminada!

Entre Livros
A teimosia rendeu frutos, sua mãe acabou por levá-la à livraria da Rua das Figueiras desde que ela, como prometido, esperasse até sua volta do mercado. A mãe disse também, além de todos os avisos para ter cuidado e outros mais, que não demoraria muito.
Mas, de nada dera certeza absoluta e a pequena sabia que ela não cumpriria o que havia dito, e se demoraria a voltar a vê-la. Tanto importava. Desde que pudesse comprar o livro onde lera aquele primeiro nostalgiante parágrafo. Estava ótimo.
Entrou na livraria, deu para ouvir o tilintar do sino ao alto da porta, avisando mais uma cliente, apesar de toda a sua distração. Virou para a vitrine envidraçada e viu sua mãe ir embora. Parou por um momento, suspirou, entregou-se.
Correu entre as prateleiras e prateleiras, e sentiu o cheiro do café que o balconista tomava passar flutuando pelo ar. Foi verificando à procura do livro.
Começando pelas estantes de tema Drama, ela esticou-se a fim de enxergar até a última das prateleiras, e depois se abaixou até procurar pelas primeiras. Acabou por se resolver pelas estantes denominadas Suspense, mesmo não tendo certeza do que o livro se tratava.
E passou uns minutos assim, pesquisando nas estantes, pulando de tema em tema. Havia ainda a chance de o livro estar separado, em algum outro dormido lugar, algum lugar para livros mais antigos, coisa que ele era.
Ela levou o dedo à boca, mordeu de leve e tentou calcular melhor onde poderia estar, já nem sabia onde estava si mesma. Remexeu seus cabelos. E ele, onde, então?
Caminhou por mais corredores de uma madeira escura, negra, e que não rangiam. Chãos de madeira costumam a ranger. Tamborilou os dedos nas estantes, assobiou chamando pelo livro. Virou-se de costas e deu de cara com um jovem.
O jovem vestia uma calça jeans e uma blusa social esverdeada, clara, de mangas compridas e presa dentro da calça, formando uns gomos fofos junto do corpo dele. Tinha também um avental verde musgo, longo o bastante para bater nos seus joelhos, o que não era lá muita coisa já que ele era baixo. E o que dava um toque final, uma moldura tortuosamente postada, eram seus óculos retangulares e escorregando por seu nariz ligeiramente alongado.
Ele sorriu macio e perguntou se poderia ajudar.
A garota agradeceu e clamou mais uma vez pelo livro perdido, por favor.
Ele pediu que ela o seguisse.
Os dois se puseram a cruzar mais corredores negros e que cheiravam a café um pouco passado.
No fim, o bibliotecário, que não era o balconista tomador de cafés, e, inclusive, era novo lá, tinha chegado aonde a menina cogitara que o livro poderia estar. A uma grande estante, idêntica às outras brutas e discrepantes, apenas uma pitada maior que elas. Era onde ficava guardada uma coleção de livros antigos, estes que davam destaque ao nome daquela livraria das Figueiras entre os das outras.
A única na cidade com um número significante de livros antigos, livros que diziam se datar da mesma época em que aquelas retorcidas árvores, que decoravam a rua e seu nome, eram jovens. Uma boa fama.
Eles repousaram o olhar nos livros e ela soltou um sorriso de satisfação ao sentir o cheiro empoeirado e doce da conservação daquela discernida estante. Falando algo baixinho como “deixe me ver”, o rapaz colocou-se a fazer o mesmo que a garota.
Distendeu até a última, e permitiu a seus olhos escorrerem até a primeira prateleira.
Apontou mentalmente para cada um dos livros e procurou entre seus títulos e suas laterais aquele especial. Havia os limpado não fazia mais que uma semana e o tinha visto por lá.
Então, a menina o viu encarapitar-se e puxar um livro de uma das prateleiras mais altas. Era aquele o livro que procurava, o jovem entregou em segurança às suas mãos e os dois sorriram.
A garota demorou um pouco para agradecer, ficou observando a capa dura e acinzentada do livro, mas não se esqueceu de agradecer. Não poderia. O jovem fez uma mesura e virou um corredor, sumindo de seu olhar, olhar que havia resolvido se demorar nele. Ela sentiu, por um instante insano, uma estranha atração e curiosidade pelo rapaz, entretanto, não só permitiu como achou melhor que a atração se dissipasse.
Voltou à capa acinzentada, abriu e reviveu as encenações da contadora de histórias, misteriosa e revirante, daquele livro.
Primeiro, ficou ali, de pé, lendo os parágrafos.
Um pouco depois, encontrou apoio numa das fatias de madeira perto dela, encostou-se e continuou lendo.
Quase que uma hora passada, havia se sentado no chão, e de pernas cruzadas lia o livro, focada.
O jovem veio novamente, dando o ar de sua graça, atiçando os olhos da garota. Ela levantou a cabeça, quando ouviu o soar dos sapatos de couro no chão, e viu sua mágica figura ali. Ele só sorriu. E perguntou se queria alguma outra ajuda.
Ela estava no chão há mais de uma hora.
Só poderia precisar de mais algo. Não?
Não, mas foi o que o jovem achou. Ela explicou que esperava por sua mãe para pagar o livro, ele compreendeu e silenciou-se. Os dois se silenciaram e a garota fechou o livro, pregando o número das páginas com o indicador, vagava do livro para o bibliotecário e do bibliotecário para o livro. Vice e versa até se completarem sessenta segundos.
Resolveu juntar umas palavras, formar uma frase e entregá-la a garota, foi o que o bibliotecário fez. Ele falou a ela que já lera aquele livro, e gostara muito. Os dois entraram em concordância e se calaram mais uma oportuna vez. Ele checou o relógio que pendia em seu pulso com um olhar amargo, e informou à garota algo mais amargo ainda.
A livraria fecharia em questão de cinco minutos.
A garota se exaltou e arregalou os olhos, sua mãe ainda não havia chegado. Mesmo? Eles atravessaram a livraria em direção à porta. E ela ficou ali parada, observando pela vitrine.
A espera não foi muito construtiva: sempre que alguma pessoa passava, ela esticava-se, mas nenhumas daquelas fora a sua mãe. Duraram cinco minutos.
O jovem foi até seu lado e perguntou se havia alguma notícia da sua mãe. Ela negou tristemente, queria tanto levar o livro, e sua ânsia aumentava a cada parágrafo. Ele reparou aquilo estampado no rosto da garota, saiu de perto dela e se dirigiu até o lustroso balcão onde ainda estava o homem que gostava de café, tomando outra xícara pesada.
O homem entornou um grande e profundo gole, apoiou-se no balcão e bufou ao ver a figura da garota ainda parada à porta, no mesmo instante ela começou a observá-lo.
O bibliotecário endireitou os óculos numa bizarra preparação para falar com o balconista. Ela conseguiu pegar uns trechos da conversa que foi transmitida em sussurros, o jovem tentava desdobrar o balconista para poderem esperar mais alguns minutos.
Minutos suficientes para a mãe da garota chegar. Foi o que ele disse.
Ela se sentiu lisonjeada ao imaginar que ele estava tentando ajudar aquela pequena e humilde criatura. Sentiu-se lisonjeada, se sentiu corar.
Sorrindo, aproximou-se para mais uma calorosa aparição. Como ele mesmo disse, tinha boas novas, ela poderia esperar mais alguns minutos pela mãe. Entretanto “mais alguns minutos” fora tudo que conseguira, o balconista estava sonolento e aborrecido, mesmo com toda aquela cafeína, e não permitiria muito mais para fechar a livraria.
Ela ficou grata e demonstrou aquilo com as palavras que conseguiu, não muitas. Duas: “muito obrigada”. Para ele, foi o suficiente. E para ela, os minutos também.
Para o livro, não.
Quinze minutos foi o tempo que o homem deu. Apenas quinze nada a mais. Ele se aproximou da dupla que esperava ansiosamente, seus cabelos compridos e negros esvoaçaram-se quando levou a garota para a porta aberta, desculpou-se e disse que ela poderia comprar o livro no dia seguinte, puxou a capa da mão dela.
O bibliotecário observou a garota, deslocada, cruzar a rua e sentar num banco. Ele a observou com uma expressão infeliz, depois o balconista o pôs a trabalhar para fechar a loja. E ele não pode mais observar a garota deslocada.
Ela, por sua vez, concentrava sua mente no livro, e no momento em que o fora tirado dela. Ainda conseguia sentir as folhas castigadas pelo tempo, conseguia ver aquele tom de cinza. E como o balconista as deslizara de suas mãos. Só conseguia, agora, lembrar do cheiro do café, em vez do da poeirenta conservação.
Uma brisa suave e gélida passava entre as folhas da figueira que estava bem acima da menina. Ela foi tornando-se sonolenta, e tornando a pequena também sonolenta. Era tarde, ela estava cansada de tanto esperar.
Apoiou-se no banco e deixou a noite levá-la.
Após ajudar o balconista a fechá-la, o rapaz de óculos tortos, agora sem seu avental verde, se viu deixando a livraria. Carregando uma sacola em sua mão esquerda, viu também o cruel homem ir embora e acenou para ele.
Trancou a porta da livraria com sua chave. Colocou a chave no bolso, e olhou para o outro lado da rua. Ela ainda estava lá, e para sua surpresa, cochilava encolhida no banco de mármore gélido.
Ele foi chegando perto dela, ouvindo o som plástico da sacola junto de seus tornozelos, e a observou bem de pertinho.
Ficaram assim, ele vislumbrava os cabelos e o rosto delicado, ela caia aos poucos em mais fases de sono, até ele perceber que deveria se apressar. Então, delicadamente, sacudiu um pouquinho a garota.
Ela se contorceu no banco, e perguntou o que era, entretanto, ela ainda dormia.
Ele levantou a sacola, entregou em suas mãos, a menina a agarrou cegamente e abraçou-se a ela.
“Para você.”, ele sussurrou.
Beijou sua testa, afastou-se dela. Olhou para os lados. Não havia ninguém. Afastou-se mais ainda, a ponto de já estar no meio da rua de paralelepípedos, virou e começou a caminhar.
O bibliotecário caminhou para longe dela, mas seus olhos não. Eles viram a garota se encolher mais ainda e abraçar a sacola, viram a mãe dela chegar ao longe. Depois, viram a mãe acordá-la. Viram a garota observar a sacola sem compreender o que ocorria. E a viram abraçar a sacola, com mais carinho do que quando dormia.
Seus olhos assistiram a tudo aquilo e contaram para ele. Ele sorriu maciamente, e sentiu o coração se apertar devagarzinho. Passou a olhar para frente, e seguiu sua vida.
Em todo o caminho para casa, a garota passou acordada, dentro do táxi que sacolejava nas ruas de paralelepípedos e de figueiras. Passou pensando em quem haveria dado a ela aquele livro.
Teria sido o balconista por se sentir arrependido por haver tirado-na da livraria?
Ou sua mãe fizera aquilo por puro prazer de deixá-la no suspense da história?
O jovem? Mas, por que ele faria aquilo? Por que compraria o livro para a garota com o seu dinheiro e o daria em troca de nada?
Ela não se lembrava de nada, nem de sussurros, nem de figuras se aproximando com barulhos plásticos. Só da afeição pelo bibliotecário de roupa verde e de seu sorriso macio. Mas, aos poucos a afeição seria esquecida. Por ela.
Não por ele. Ele, sim, se lembraria.
Só que, para o azar do rapaz, a garota só retornaria anos depois àquela livraria, de cabelos curtos e corpo crescido. Para o azar dele, ele não a identificaria. Para o azar dele, ele passaria o resto de suas noites sonhando com aquela pequena, sentindo a brisa daquela noite e o gosto da pele dela.
Fim.
A menina ainda lembra do sorriso macio, que vem de algum lugar.


Ah, senhores! Não sei se me alegro ou me decepciono! Como eu poderia imaginar que o primeiro final seria logo o dessa? Depois de terminá-la senti um gélido vazio e, meu coração, um aperto assim como sentiu o jovem rapaz da história ao abandonar a garota.
Talvez sejam assim que devem terminar todas as histórias. Porque, de certa forma, é sempre assim que elas terminam. Sem fim. E isso nos leva ao tema de minha próxima história: a Morte.
Muito obrigada!

Minha petulância de boneca

domingo, 4 de novembro de 2007

Percebi, hoje, que venho me tornado uma criatura petulante e mimada. Odeio isso. Primeiro, eu odeio pessoas mimadas, está bem que desde novinha venho sendo cuidadosamente tratada e tendo meus desejinhos infantis comprados por meus pais, mas toda essa minha personalidade foi construída e destruída pelas minhas próprias mãos. Como um castelo de areia. E tenho um orgulho ordinário de firmar que tudo que fiz até então faz parte de mim, coisas boas e ruins.
Mas, de que adianta tudo isso se viro alguém que odeio?
Sinto-me como uma rainhazinha segurando suas plumas, toda cheia de orgulho, delicadeza fria, brutalidade pintada de ouro e prata, crueldades?, apenas parte de seu trabalho de rainha. Petulância pura de boneca, é como me sinto. Desculpem.

A Boneca de Porcelana
E ela seguiu, levando consigo um caderno, um bico de pena, seu relógio de bolso e suas luvas brancas, constantemente brancas. Suspirando.
“Não tenho nenhuma idéia”
Sem idéia não haveria a festa, e, sem festa, continuaria triste, observando o sol adentrar por suas janelas e a noite virar manhã, um dia após o outro. Por isso seguiria seu plano, firme, mesmo sentindo aquela dorzinha fina no coração, mesmo sentindo vontade das lágrimas escorrerem face abaixo.
E, lá foi ela, boneca de porcelana, em contraste com a paisagem esfumaçada da cidade, seus saltos faziam um barulho baixo nas pedrinhas da rua, levava seu caderno comprimido nervosamente junto ao busto. O bico de pena, preso entre as espirais do caderno, fazia um barulho tão leve quanto seus passos.
Passava por muitas pessoas, uma vez ou outra tentava pedir uma ajuda, mas todos seguiam direto, sem nem olhar, ou olhando do alto, “frios”, ela disse entre os lábios formando um bico tristonho.
Ajeitou o bico de pena nas espirais, subindo-o, de volta ao começo de sua fuga para fora do caderno, ajeitou a postura, subindo-a, tentando parecer com o resto do mundo frio e passivo, e tentou ajeitar o sapato, tropeçando, de joelhos no chão. Ela largou o caderno no meio da queda, indo ao chão, para deixar os braços livres a apará-la, e sentiu o relógio de prata saltar dentro de seu bolso, assim como seu coração em seu peito. Rapidamente ela se endireitou, ajoelhando-se e limpando as luvas sujas, agora, de terra. As pessoas frias que passavam olhavam sádicas, com risadinhas e sorrisos sádicos. “N... não doeu”, tentou falar para os outros, fingindo ser mais forte que sua camada de porcelana poderia permitir ser. Ninguém disse nada, apenas continuaram passando e olhando sadicamente; seus olhos marejaram, sentia vergonha de si.
Era uma boneca de porcelana, frágil, num mundo rígido e cruel, onde qualquer coisa poderia quebrar lhe o coração e machucar sua pele.
Então, uma jovem se aproximou a passadas rápidas, porém devagar, porém curiosa. A jovem chegou um pouco mais perto dela e lhe estendeu a mão, a boneca de porcelana, espantada, abriu a boca, enxugou as lágrimas e, catando suas coisas do chão, aceitou a ajuda.
“Está bem?”, a jovem perguntou.
Ela vestia um vestidinho vermelho, com muitas rendinhas, e morangos bordados na barra, não era muito adulto e nem muito infantil, seus cabelos escorriam em cascatas de cachos pelos seus ombros.
“Sim.”, ela falou rapidamente, tímida.
“As pessoas daqui não ajudam muito, estão muito ocupadas com suas vidas, acho que a poeira daqui do centro da cidade que meche com o coração delas, deixando-os negros.”, a jovem disse olhando fixamente para ela; a jovem não era do tipo de pessoa que se distrai gesticulando o que fala, e observando ao redor para ver se a censuravam, como se tivesse medo de que achassem errado o que dissesse, do contrário, ela realmente colocava em questão o que pensava, ou, ao menos, fora dessa forma que a boneca imaginou que a Jovem fosse.
“Obrigada. Por reparar em mim e vir me ajudar...”, ela disse baixinho, fazendo bico com sua boca pintada de batom.
“Meio difícil não reparar em você, é muito bonita, pena ser muito inocente, as pessoas podem lhe ferir muito facilmente.”, disse a Jovem.
“Ah. Sim, obrigada...”, ela falou apesar de não entender porque uma pessoa poderia querer ferir outra, ela realmente não compreendia o que era esse sentimento.
As duas pararam por um momento, a boneca ficou olhando para seus sapatinhos vermelhos, tentando achar um bom momento para perguntar à Jovem por uma fantasia; já a Jovem ficou olhando a sua volta, refletindo.
De repente, a Jovem virou-se como se fosse embora, a boneca percebeu e apressada levantou o rosto, com medo de que sua única chance de alguma idéia se esvaísse. E, novamente de forma repentina, a Jovem virou-se de volta a olhar para a boneca e disse, sorrindo: “quer vir comigo até minha lojinha?”, e deu uma piscadela simpática.
A boneca ficou espantada com a atitude doce da garota, como podia ela, tão doce, morar num lugar daqueles?
Ela sorriu e resolveu seguir a Jovem.
Não precisaram andar mais que alguns poucos metros para chegarem à porta de uma lojinha diferente, ela não tinha nome, no lugar do nome havia apenas dois morangos, e era completamente colorida, verde, rosa, vermelho, branco e um azul aqui e ali. Aquela lojinha era tão diferente das outras lojas, escuras e com persianas quebradas, era como achar um anjo achar aquela Jovem e sua loja.
A Jovem pegou uma chave dentro do bolso, perto da barra de seu vestido, e abriu a porta da lojinha, a boneca, sem saber ao certo o que fazer, esperou envergonhada uns instantes e logo a Jovem a convidou cordialmente a entrar.
“Quando estava vindo abrir a lojinha é que a vi.”, e foi até a porta para virar a plaquinha de “fechado” para “aberto” e depois em direção ao interruptor, clareando todos os cantos, impedindo que aquela escuridão das outras lojas se repetisse dentro daquela.
Quando a Jovem acendeu as luzes que ela pode ver o que era vendido lá, na tal lojinha, morangos e tudo relacionado a eles. Havia caixinhas adornadas com morangos, trabalhados na madeira, havia panos de prato com morangos pintados, havia blusinhas com estampas de morangos e botões de morangos, e havia, o que não poderia faltar, morangos, embalados em caixinhas de plásticos, vermelhos e doces, sem o menor sinal daqueles machucadinhos que morangos costumam a ter.
A Jovem pegou uma das caixas de morangos e ofereceu à boneca.
“Desculpe, estou sem dinheiro...”, ela disse baixinho apertando o caderno contra o busto.
“Não, não precisa pagar. Esta loja não é um negócio muito lucrativo, uma vez ou outra me pego comendo os morangos que estão à venda, não há problemas em você comer alguns.”
E, então, a boneca pegou um morango e o levou à boca, estava realmente doce, mais que a aparência poderia dizer. A Jovem sorriu novamente, de um jeito meigo que só ela fazia naquela cidade, e, pegando um morango, disse:
“Eles são uma dádiva, não acha?”, e a boneca fez que sim com a cabeça, respeitando a educação em não falar de boca cheia, especialmente quando está cheia de morangos. “Nessa cidade a minha lojinha é a única que vende morangos, ou, melhor, a única que vende morangos que não são amargos e estragados.” E a Jovem deu uma risadinha, “Morangos são difíceis de cuidar e, se não o fizer bem, eles estragarão com uma tremenda facilidade. As pessoas daqui não acham morangos muito interessantes e não tem paciência para cuidar deles, então, eles amargam. Talvez seja por isso que elas não são muito alegres, morangos deixam nossa vida docinha, fazem bem para a alma, soa estranho, mas é o que eu acho.”
A boneca fez que sim com a cabeça, novamente, parecia mesmo que faltavam morangos na dieta daquelas pessoas, porque, no fundo, a Jovem tinha razão, apenas em comer uns dois morangos a boneca já se sentia bem, apesar dela não saber se era por serem morangos ou por serem aqueles morangos.
“As pessoas dessa cidade parecem que tomam limões...”, ela disse baixinho e fazendo uma cara tristonha. Ela não sentia raiva daquelas pessoas, sentia pena delas por não serem felizes, no fundo, igualmente a razão da Jovem em relação aos morangos, elas não eram mais felizes que a boneca, eram tão tristes quanto.
A Jovem riu, “Você tem razão! Parecem mais que comem limões!” e ofereceu outro morango a ela. As duas se silenciaram, a boneca estava comendo outro morango e a Jovem estava distraída refletindo novamente.
“Você parecia triste e desnorteada no meio daquelas pessoas, há algo em que eu possa ajudar?”, a Jovem disse, finalmente, depois de um silêncio enervante.
A boneca parou por um pouco e pensou em como deveria usar as palavras, da maneira mais delicada possível, afinal a Jovem era muitíssimo gentil.
“Eu estava procurando alguém que me desse uma idéia para a fantasia.”, ela falou imaginando ter escolhido bem.
“Fantasia, qual fantasia?”, a Jovem perguntou parecendo até intrigada, não tola.
A boneca corou, havia usado o artigo errado. Ao invés de um artigo indefinido, o que faria mais sentido para a Jovem que não sabia do que se tratava a tal fantasia, ela usara um artigo definido, como se já tivesse uma fantasia em mente, o que era completamente o oposto da situação.
“Perdão, usei o artigo errado!”, ela se apressou em dizer, exaltada, “Eu gostaria de ter dito ‘uma fantasia’ ao invés de ‘a fantasia’. Eu estava procurando alguém que me desse uma idéia para uma fantasia.”, ela tratou de repetir a frase palavra por palavra, corrigindo o primeiro erro.
“Ah, sim, claro, eu quem entendi errado. Deixe me pensar... uma fantasia?”, e a Jovem sorriu meigamente, se fosse outra pessoa qualquer daquela cidade teria rido dela e da maneira um pouco infantil de corrigir o erro da frase.
A Jovem fez a mesma cara que fazia quando refletia distraidamente, e, da maneira repentina dela, disse: “morango! Você ficaria linda de morango!”
A boneca franziu o cenho, não entendia a mania que a Jovem tinha por morangos, mas acabou sorrindo, talvez ela ficasse bonitinha de morango. E pegou seu caderno, abriu na primeira página em branco, escreveu a primeira idéia: “morango”, a Jovem suspirava enquanto havia voltado a refletir.
“Todavia, não sei se você gosta tanto de morangos quanto eu, então, talvez fosse melhor você escolher algo que demonstrasse mais o que sei coração quer dizer.”, a Jovem disse parecendo meio triste por sua idéia não ser a ideal. As duas pararam para refletir.
“O que... meu coração quer dizer?”, a boneca perguntou baixinho, olhando para os sapatos vermelhos, meio tristonha. A boneca não sabia o que seu coração queria dizer, ela não sabia porque tudo que ele queria, naquele momento, era uma companhia melhor que a solidão, e era só isso que ele dizia, todo o tempo, tentando explicar por dores fininhas e pontadas que parecia matá-lo.
A Jovem reparou no rosto infeliz da boneca voltado para o chão.
“M... mas eu não sei o que ele quer dizer...”
Então, repentina, como sempre, a Jovem se aproximou e abraçou a boneca delicadamente, para não quebrar sua porcelana. A boneca sentiu seu coração aquecer e dizer algo, baixinho, bem baixinho. Sem a solidão machucando-o, ele conseguia falar, mas de uma maneira quase muda, estava muito ferido para se esforçar.
“Você irá ouvi-lo.”, e foi só isso que a Jovem soube dizer, nem ela mesma saberia ao certo como agir naquela situação e sentia muita pena de ver a boneca assim, pois, sendo inocente como ela era, seria uma tarefa muito complicada e desventurada ouvi-lo claramente.
As duas ficaram abraçadas por um tempo, e, então, a boneca entendeu que era melhor ir, procurar pelo o que seu coração queria dizer. A Jovem desfez o abraço que envolvera a boneca, deu um passo atrás, e elas se despediram. A boneca voltou às ruas da cidade, olhando para dentro da loja, onde lá sorria a Jovem. Fez um aceno e se foi.
A Jovem ficou lá observando o curioso contraste daquela criatura de roupa branca com o cenário de pessoas de ternos pretos, sorrindo de maneira meiga, sorrindo de maneira solitária a Jovem. Talvez a boneca nunca soubesse, mas a Jovem sabia que sua solidão era tanta quanto a que ela sentia, entretanto a Jovem a combatia de sua forma, comendo doces morangos todos os dias, uma mania que só ela compreendia.
Fim

Aí está uma das que gosto. Nem talvez pelo próprio texto. Minha mãe aprecia muito a Boneca. Ainda está por vir a parte dois da história, entretanto, todavia, no entanto, não sei se isso é um bom aviso ou mais uma desgraça. Além do que, se eu terminar a segunda parte. E, na verdade, a primeira...
Comecei a escrevê-lo no PDE, foi meu primeiro dia lá, disso bem lembro-me. Agora, o PDE se tornou uma segunda casa para mim, só que não posso mais me dar ao luxo de escrever por lá, gosto mais de ter trabalhos para fazer e trabalhos feitos. Enfim, comecei a história de uma outra parte, fiquei de terminar o começo por mais outros dias, só que isso ficou apenas na promessa. A segunda parte ganhou o desonroso título de primeira e, então, cá estamos com a sinopse:
"Ele conta a história de uma garota tentando arrumar uma fantasia para uma festa de quinze anos. Entretanto, a garota é tão inocente e delicada que, para encontrar sua fantasia ideal, tem de passar por uma série de provações."
Muitíssimo obrigada!

Onde estamos?

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Hum, talvez seja a minha falta do que fazer ou meu gosto por postar. Por mais que eu tente me controlar eu acabo vindo até aqui para mais uma aparição desordenada e desgraçada. Agradeço pelos comentários, não sou internacional, muito menos uma grande autora, mas me enche o coração ouví-los.

O Embrulhinho Felpudo
A manhã acordou aborrecida, cinzenta e fechada, naquele dia ela tinha acordado excepcionalmente tarde devido aos ventos que tinham soprado as nuvens para cima do sol nascente.
Mas, não apenas ela acordara aborrecida, cinzenta, fechada e tarde, também a menina de nome Catarina.
Ela sentou-se em sua cama, olhou para a cama ao lado da sua e viu que a irmã já não estava lá. Acordara tarde e como odiava isso! Pôs se de pé e caminhou até o banheiro, escovou os dentes, penteou os cabelos curtos cobre, foi descendo a escada.
Encontrou a sala desarrumada, como já era de se esperar, ninguém se dera ao trabalho de organizar os livros, jogar o lixo fora, ou fazer a colcha do sofá, ao contrário de desfazê-la.
Arrumou tudo, cada detalhe que suspirava por ordem, cada coisa que sua perfeição gritava-lhe. Só mais uma coisa, minha querida, varrer a sala. Então, foi ir porta afora, cruzou o quintal sujo pela ventania com suas cadelas esfregando-se em suas canelas. Pegou a vassoura e a pá que se apoiavam nas paredes, girou os calcanhares e fez caminho-de-volta.
A vassoura escorregava de suas mãos suadas e arrastava no chão, causando trabalheira à menina Catarina que, de estatura pequenina, tinha que manter os braços erguidos para não sujar a piaçava com a poeira do quintal. Mas, não iria sujá-la com a poeira de casa? E, não era tudo poeira igual? Caminho-de-volta com vassoura arrastando, cruzar um quintal parece uma aventura para uma menina de criatividade e pensamentos tão fluídos quanto os da Menina catarina.
Caminho-de-volta feito, foi fechando a porta da sala para as cadelas não entrarem, e, por algum motivo, contou uma cadela, duas cadelas, mas, não contou três cadelas, que seria o número certo de cadelas naquele conjunto matemático ordinário e infantil.
Hum. Onde estaria a terceira? Pelagem branca, estrutura pequena. Lá estava ela, não muito ao longe da porta, de modo que Catarina a encontrou num simples subir de olhar. É, lá estava ela, não havia dúvidas, ela estava lá, junto da rede velha que servia de colchão, junto de um embrulhinho preto e felpudo.
Foi fechando a porta, novamente, e, por outro motivo ignóbil, contou um embrulhinho felpudo, um embrulhinho felpudo, mas, contou exatamente um embrulhinho felpudo. O que, diabos, era um embrulhinho felpudo em vez de nenhum?
Foi indo para a rede velha, a cadela branca ia pegando o embrulho e levando embora, mas Catarina rosnou, enxotando-a e mandando deixar o embrulho no lugar. A cadela fez tudo que ela ordenara, e com um olhar de quem havia feito coisa errada. Catarina franziu o cenho sem entendê-la, voltou a olhar o embrulho e a andar para um pouco mais perto dele, levou as mãos à boca e soltou um gritinho pálido, parou.
Era um pássaro, o embrulhinho era um pássaro! Um filhotinho largado. Estava morto, ela pensou, e ia dando meia volta afastando a mente daquela morbidez, quando o embrulho mexeu a cabeça e ofegou. Como movida à eletricidade, correu para perto dele.
São Longuinho, estava vivo! Respirava, pulsava vivacidade em suas veias!
E aí? O que fazer com ele?
Tiraria o dali, e rápido! Dar-lhe-ia água. Muito bem, é só pegá-lo e... Pegá-lo? Aquela criaturinha molinha que podia estar machucada? Além do mais, suas garrinhas prediam-se na rede velha de tal forma, com tal brutalidade e delicadeza. Porém, teria que pegá-lo, de um meio ou de outro, nem que tivesse que levar a rede velha junto, mas, como seria melhor se não tivesse! Então, o jeito era tirá-lo de lá.
Catarina ajoelhou-se ao lado do pássaro e foi puxando garrinha por garrinha da rede. Ele estava tão assustado que nem reagia, durante toda aquela demorada e dificultosa operação de desgrudá-lo da rede, ele não ousou fazer outra coisa se não exercer a apatia.
A menina sentia o suor escorrer pela testa, que medo de machucar aquela coisinha, e que nervoso daquelas pincinhas que se encolhiam ao desprendê-las! Se pudesse ao menos secar a testa. Tremeu ao ver suas patas se contorcerem tanto ele quanto ela. E, logo, estava livre, na verdade, não exatamente livre, já que agora estava agarrado aos dedos magricelos de Catarina. Muito bem, onde havíamos parado? Ah, sim! A água.
Catarina se pôs de pé, o passarinho mexeu a cabeça e seu coração novamente pulsou rápido, bem como havia feito ao encontrar a menina, só que, agora, aquilo não era bom sinal, já sabia que estava vivo, então, estava vivo e assustado. Tudo que Catarina menos queria era que ele criasse medo dela, queria tê-lo como amigo.
Fim

Se não, vejamos. Acho que depois do Gato Pardo me faltou muito toque. Está certo que meu lado mais figurado vem aflorado, timidamente. Só que sinto que me falta, por incrível que pareça, amargura para mais histórias. Entretanto, por hoje, prefiro estar no mínimo alegre.

Outra pequena história

terça-feira, 30 de outubro de 2007

O que deu em mim para colocar uma após a outra? Estaria eu ficando louca? Pois bem, de uma forma ou de outra, acabei por postá-la.

O Rosa do Cinza
Lembro-me bem de minha infância, na verdade, não muito bem, mas quase. Minha infância não faz muito mais que cinco anos, todavia parece estar muito mais distante.
Eu tinha dez anos enquanto corria pela rua acinzentada de uma cidade acinzentada com meu irmão ao meu encalço. Ele ainda vive ao meu encalço, menos chato e mais piedoso do que era.
Eu era brincalhona e adorava correr do meu irmão, ele apenas bufava me seguindo, ele não gostava de me perseguir quando eu fugia e dizia que eu era muito irritante, além de teimosa. Embora, também dissesse que me amava muito e que eu era a única estrela no céu dele, eu era a única coisinha que resistia e ainda sorria no meio da guerra, diferente do resto de toda a família que morrera, diferente do resto de todos os amigos que chorava. Gostaria de ainda estar dessa forma nos conceitos dele.
Nós viajávamos a cidade de cima a baixo à procura de lugares onde eu poderia cantar, íamos de uma casa de show à outra, não achávamos muita coisa, pois, como era guerra, ninguém se importava muito com cantar e sorrir e coisas do gênero. Não demorou muito para eu ter que cantar nas ruas, era pobre e cansativo, mas nos ajudava o bastante.
Todo dia eu corria pelas ruas antes do sol nascer e, fugindo do meu irmão, escolhia um local aconchegante entre as flores acinzentadas mais quentes que havia e sentava-me para cantar. Meu irmão, ao me alcançar, pegava seu violão, tirava umas notas e pedia para que eu inventasse uma letra qualquer, eu pensava em como me sentia e criava uma. Eram canções bobas e com um vocabulário bem limitado, mas acho que passavam com sinceridade o que queriam passar, porque as pessoas paravam para me escutar e me davam moedas, notas, ou até mesmo rosas. Foi em uma dessas canções, enquanto minha voz corria e escorria pelas notas de uma música triste sobre mulheres e crianças solitárias longe de seus maridos e pais, que um homem idoso me chamou para junto dele e me entregou seu cartão. “Essa, essa voz é linda, por favor, procure-me, irei arranjar-lhe um emprego digno dessa voz.”, eu me recordo dele ter dito. Depois disso ele me deu uns trocados e foi embora, eu e meu irmão ficamos parados olhando para, em parte, o cartão e, em parte, o idoso que desaparecia pela rua. Eu estava muito feliz, mas meu irmão estava hesitante, ele achava o homem “muito suspeito”, como dizia.
Depois de eu insistir muito mesmo com o meu irmão, consegui que fossemos procurar aquele homem. Fomos ao endereço que dizia no cartãozinho que nos levou a uma casa meio maltratada, ficamos ali, olhando um para o outro, meu irmão estava de braços cruzados segurando o cartão do homem numa das mãos, seus olhos recaídos sobre meu rosto como se me censurassem dizendo: “olha aonde nos trouxe”, e imagino que era realmente isso que ele queria passar.
“Eu já lhe disse que não quero ir, Anna, vamos embora que não precisamos da ajuda dele.”, ele teimou com força.
Eu o ignorei e dei um paço à frente. Ele se postou na minha frente rapidamente, esbarrei nele. Eu tentei passar a sua frente, mas ele me segurou pelos braços.
“Não! Eu já disse que vou, minha voz é a única coisa que pode nos ajudar nesse mundo e vou usá-la!”
Apenas me segurava e me ignorava.
“Deixe-me passar! Deixe-me passar, Ryan!”
E comecei a dar uns leves golpes em seus braços para que ele me largasse, eu era pequenina em comparação ao meu irmão e ele me segurava com uma facilidade extrema o que me deixava sempre muito aborrecida.
“Por que você não quer me deixar ir?! Por quê?!”
Ele continuava a me segurar e a me ignorar, eu ficava tão furiosa que meu rosto já estava vermelho e meus olhos marejados. Eu tinha insistido a semana toda para que fôssemos e, agora que estávamos lá, em frente aquela casa, ele não queria deixar.
“Eu só quero nos ajudar, deixe-me passar! Pare de me ignorar! Por que você não quer me deixar ir?! Pare de me ignorar!”
E, quando eu ia dar-lhe um chute na canela, ele gritou:
“Nem pense nisso!”
Eu quase nunca via meu irmão irritado e vê-lo assim me dava muito medo, então eu me inquietei, abaixei a cabeça, chorei baixo. Ele se ajoelhou e me olhou firme nos olhos.
“Eu vou explicar-lhe. Na guerra ninguém em sã consciência se importa com diversão, música, nesse tempo isso é só para os grandes homens. Então, por que um homem, idoso ainda por cima, iria se importar em arrumar um emprego para você? Ele não é rico, não é político!”
Não posso negar que meu irmão não tinha razão, mas eu imaginava que, se era para correr risco por algo, eu correria risco por algo que me prometia uma vida melhor, ao menos. Então, como eu não tinha nada a dizer, continuei de cabeça baixa.
Meu irmão se levantou e me deu as costas, fazendo o caminho de volta de onde viemos, eu continuei ali, vendo que ele não me esperaria e nem me chamaria.
Quando ele já estava a mais de seis metros de mim, minha cabeça voltou a funcionar como antes: eu queria entrar, queria falar com aquele senhor. Então, resolvi não hesitar mais nem um segundo, caso o fizesse meu irmão me impediria novamente, corri em direção à casa maltratada e me esgueirei até a campainha. Toquei.
Ao ouvir o som titilante ecoando por toda a casa, meu irmão se virou imediatamente, seu rosto estava vermelho e concentrado em mim, ele veio até mim com os pés batendo, e, quando ia me arrastar pelo braço rua a fora, a porta se abriu.
Olhei para a senhora que atendia a porta com um sorriso de orelha a orelha, meu irmão não havia me impedido, e ele olhou para ela com uma expressão mista de raiva e espanto.
“Podem entrar.”, ela nos convidou.
Fim

O que posso dizer dessa história? A princípio, amo seu título, por isso eu acharia interessante, ao menos, explicá-lo.
Bem, eu a criei em um devaneio antes de dormir, lembrando-me de uma música que amo: Esquadros. A voz da Adriana Calcanhotto passando por entre cada sílaba parece chocolate derretendo calmamente, ou uma certa escritora andando por ruas em preto, cinza e branco. Da minha segunda sinestesia surgiu o título, o rosa calmo, doce e amável, surgindo do cinza pelos olhos de uma garota.
No fim das contas, dentre todas as minhas histórias, esse é a que recebe menos meus prestígios. Mas, nem por isso, deixa de ser amada.
Tenha amor por si mesmo. Minhas histórias fazem parte de mim.

Uma pequena longa história

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A pedidos de um amigo meu, hei de postar aqui as minhas histórias, uma por vez. Fiquei muitíssimo agradecida ao saber desse pedido dele, e, é claro, ainda estou.
Como não sei qual deveria ser minha ordem de postagem, resolvi colocá-las de acordo com qual coloquei primeiro no DeviantArt (link).

A Escritora
Malditos dias de inverno, eles deixam meu trabalho mais difícil de ser feito e mais deprimente ao ser feito.
Morando no lugar que moro, um chalé singelo de cinco cômodos, confortável, no meio da floresta, o frio se abate sobre minha pequena morada de tal forma que só me resta cobrir-me de mantas e sentar-me em frente à minha querida máquina de escrever para digitar palavras tristes e cansadas.
Fábulas, contos, estórias, todas movidas à tristeza da solidão.
A vida poderia ser uma longa primavera, não acha? Como aquela que passei junto do querido que amei.
Agora a neve bate em minhas janelas e portas geladas convidando-me para um passeio sem volta, como diriam os mais sensatos.
“Acho que irei de encontro à neve.”
Levantei-me de minha escrivaninha, largando a máquina de escrever e as mantas pelo chão, peguei um sobretudo e enrolei-me nele. Calcei minhas botas e saí para mais uma de minhas insanas aventuras em busca de inspiração.
Andando pelas minhas próprias trilhas, observando os flocos de neve cair. Alguns dizem que não há dois flocos de neve perfeitamente iguais, e acho que estão certos, apenas um segundo para mudar tudo e todos. Um segundo, um dia, digam como quiser, para quebrar um coração em muitos pedaços e vê-lo sangrar para nunca mais ser o mesmo.
Numa das trilhas mais íntimas da floresta, parei por uns instantes, sentando-me num tronco morto de uma árvore.
Ouvi um som diferente do habitual, um miado, baixo, tristonho. Olhei atentamente para a direção do miado e vi, entre as folhagens, um gato pardo.
Gatos pardos são mais interessantes que os negros, acho eu, em seus nomes há um toque de sensualidade fora do comum, eles me levam a escrever alucinadamente.
Curioso, ele me olhou, meio medroso ele se aproximou, deveria imaginar que, sendo eu boa ou má, ele não teria nada mais a perder. Ronronou o mais alto que pode, tentando demonstrar um afeto que não sentia por mim, e se esfregou mansamente em minhas pernas magras.
Peguei o bichano no colo, ele já era um adulto, era magro e alaranjado, tinha os olhos mais azuis que já vi em toda minha vida. Eu levei-o para meu chalé e dei-lhe comida.
Ele se apegou a mim e eu a ele.
Era saltitante, alegre, mas a neve trazia tristeza a seu olhar. Ele a observava de uma forma diferente do normal, às vezes ele parava em frente à minha janela e ficava olhando a neve cair por muito tempo.
Pela amargura que ele sentia na neve, dei-lhe o nome de Yoku, que significa “aquecer-se ao sol”... Acho que combina com meu solitário gatinho, pobre gatinho.
Pela manhã de um desses dias de inverno um pouco mais cálidos, eu notei, intrigada, a ânsia com a qual ele se esgueirava pela casa à procura de uma brecha de sol. E, quando via que não podia alcançá-la, ele desistia, se deitando com o coraçãozinho felino pesado.
Isso acabou me dando uma inspiração para um conto. Sentei-me junto de minha máquina de escrever, e comecei a digitar. Yoku se juntou a mim, deitando no meu colo entre as minhas mantas, a maquininha do rom-rom em seu peito funcionando, esquentando meu colo e o meu vazio chamado alma.
“Não tenho ninguém como você há tantos anos, Yoku.”
E acariciei suas bochechas. Ele esticou o pescoço e ergueu os bigodes com orgulho de sua própria existência.

O Gato pardo

Os dois andavam lado a lado pelo bosque, amigos de infância, unidos por laços familiares e amorosos intermináveis. Dois garotos, sim, dois garotos apaixonados um pela presença e vida do outro.
Amantes inseparáveis até onde a vida pudesse deixar, até onde o “para sempre” que o mais atrevido sussurrava no ouvido do outro pudesse durar.
As mãos entrelaçadas, o olhar feliz. Eles se sentaram no chão verdejante ainda molhado de orvalho, e viram o sol nascer naquele último dia de outono. No dia seguinte já seria inverno e o tempo dizia isso por si só.
Atrevidamente, ele acariciou os cabelos loiros do amigo, puxou, beijou-lhe a face, o outro corou. “Era um menino inocente,”, ele pensava “apenas um menino inocente.”. Ele não iria fazer muito mais que aquilo, não queria ferir o coração de seu querido loiro.
Uma jovem observava os dois, os olhos se movimentavam nervosos e o coração batia movido a um rancor e ciúmes inesgotáveis.
“Ele me deixou para estar junto desse loiro maldito?!”, ela perguntava para si mesma.
Infelizmente aquela jovem era cruel demais, e sabia demais. Todo dia e toda noite ela amaldiçoava o loiro, desejando-lhe a morte. Mas Deus é misericordioso onde pode ser e, ao invés da morte, Deus conseguiu fazer com que o loiro apenas se transformasse em um gato.
E aquilo ocorreu naquele momento mesmo, no nascer do sol do último dia de outono. O loiro caiu inconsciente no colo do amigo.
A garota se controlou para não urrar de felicidade, e o amigo apenas conseguia sacudir o outro.
E, então, ele virou um gato.
“Gato pardo?”, o garoto se perguntou franzindo o cenho.
“Por que virastes um gatinho pardo?”
Ele baixou os olhos e ficou olhando o gatinho pardo acordar vagarosamente em seu colo. O gato o olhou e se encolheu com medo.
“Não te lembras mais de mim?”
Ele acariciou o bichano, este ronronou.
E os dias se passaram assim, carícias calmas e barulhinhos doces. O gato pardo não se lembrava de nada, mas ainda sentia amor por quem, agora, era seu dono. Entretanto aquele felino tinha medo de uma coisa, algo que caia devagar e sereno, a neve.
Aquilo parecia recordar-lhe o último dia de outono e o entristecia, pois ele nunca mais poderia ser quem era e amar de verdade aquele rapaz.
Um dia, já no final do inverno, alguém bateu na porta e o garoto foi atendê-la, todavia, por mais que chamasse por alguém, ninguém respondia. Deu de ombros e voltou para seu quarto, chamou por seu gatinho pardo, mas ele não vinha.
Ele chamou de novo.
Nada.
Ele procurou em seu quarto.
Nada.
Na sala.
Nada.
E em toda a casa. Mas nada de seu gatinho pardo aparecer.
É que ele, agora, estava preso dentro de uma sacola de pano, sendo carregado pela jovem.
E ela o levava para o meio de uma floresta, o deixava lá, sozinho, e voltava. Aquela garota fazia isto porque, mesmo tendo virado um gato, era para o loiro que o seu amado mais dava atenção. Ela não poderia permitir aquilo, aquilo era uma prova de amor terrivelmente forte.
Ainda dentro da sacola, o gatinho miava desesperado. Quando finalmente conseguiu sair, se viu perdido, na floresta, a neve cobrindo todo o chão, caindo calmamente.
Ele se encolheu num canto, com medo da neve.
E ficou lá esperando pelo seu dono amado.
Enquanto isso o jovem estava em seu quarto esperando pelo seu Gato pardo.

Ao terminar minha mais nova estória, coçava os olhos sentindo que Morfeu estava prestes a passar por mim.
Yoku já cochilava em meu colo.
Olhei através da janela do outro lado de minha sala, a janela que fica ao lado de minha estante recheada de livros, e vi um garoto de cabelos negros chamando por alguém.
Ele baixou a cabeça e suspirou, tinha os olhos marejados. Deu meia volta e foi embora para nunca mais.
Quando realmente abri meus olhos, constatei que tinha cochilado junto de minha mesa de trabalho.
Yoku já não jazia mais em meu colo, ele estava junto da janela ao lado da estante observando a neve cair, arranhando a janela com suas patinhas acolchoadas de gato, miando daquele jeito infeliz e gemido que gatos miam.
Levantei-me e parei ao seu lado, observando a paisagem com ele.
Ele parou de miar, observou-me e se esfregou carinhosamente em mim.
Não havia mais aquele vago sentimento em seus olhos, havia sumido, havia sido esquecido novamente. Como o loiro que havia esquecido de seu amado ao se tornar o Gato pardo, ele só ronronava e vivia superficialmente, até encontrar a neve.
“Mas que imaginação a minha!”, pensei.
Fim.

Caramba, quando leio essa história fico muito feliz, gosto muito dela. Mas, ao mesmo tempo, sinto um arrepio correr pela minha espinha, não seria um tanto bizarra e infantil
? De qualquer forma, gosto da imagem da escritora solitária na floresta, pois, em dias tristes, me sinto assim como ela.