Onde estamos?

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Hum, talvez seja a minha falta do que fazer ou meu gosto por postar. Por mais que eu tente me controlar eu acabo vindo até aqui para mais uma aparição desordenada e desgraçada. Agradeço pelos comentários, não sou internacional, muito menos uma grande autora, mas me enche o coração ouví-los.

O Embrulhinho Felpudo
A manhã acordou aborrecida, cinzenta e fechada, naquele dia ela tinha acordado excepcionalmente tarde devido aos ventos que tinham soprado as nuvens para cima do sol nascente.
Mas, não apenas ela acordara aborrecida, cinzenta, fechada e tarde, também a menina de nome Catarina.
Ela sentou-se em sua cama, olhou para a cama ao lado da sua e viu que a irmã já não estava lá. Acordara tarde e como odiava isso! Pôs se de pé e caminhou até o banheiro, escovou os dentes, penteou os cabelos curtos cobre, foi descendo a escada.
Encontrou a sala desarrumada, como já era de se esperar, ninguém se dera ao trabalho de organizar os livros, jogar o lixo fora, ou fazer a colcha do sofá, ao contrário de desfazê-la.
Arrumou tudo, cada detalhe que suspirava por ordem, cada coisa que sua perfeição gritava-lhe. Só mais uma coisa, minha querida, varrer a sala. Então, foi ir porta afora, cruzou o quintal sujo pela ventania com suas cadelas esfregando-se em suas canelas. Pegou a vassoura e a pá que se apoiavam nas paredes, girou os calcanhares e fez caminho-de-volta.
A vassoura escorregava de suas mãos suadas e arrastava no chão, causando trabalheira à menina Catarina que, de estatura pequenina, tinha que manter os braços erguidos para não sujar a piaçava com a poeira do quintal. Mas, não iria sujá-la com a poeira de casa? E, não era tudo poeira igual? Caminho-de-volta com vassoura arrastando, cruzar um quintal parece uma aventura para uma menina de criatividade e pensamentos tão fluídos quanto os da Menina catarina.
Caminho-de-volta feito, foi fechando a porta da sala para as cadelas não entrarem, e, por algum motivo, contou uma cadela, duas cadelas, mas, não contou três cadelas, que seria o número certo de cadelas naquele conjunto matemático ordinário e infantil.
Hum. Onde estaria a terceira? Pelagem branca, estrutura pequena. Lá estava ela, não muito ao longe da porta, de modo que Catarina a encontrou num simples subir de olhar. É, lá estava ela, não havia dúvidas, ela estava lá, junto da rede velha que servia de colchão, junto de um embrulhinho preto e felpudo.
Foi fechando a porta, novamente, e, por outro motivo ignóbil, contou um embrulhinho felpudo, um embrulhinho felpudo, mas, contou exatamente um embrulhinho felpudo. O que, diabos, era um embrulhinho felpudo em vez de nenhum?
Foi indo para a rede velha, a cadela branca ia pegando o embrulho e levando embora, mas Catarina rosnou, enxotando-a e mandando deixar o embrulho no lugar. A cadela fez tudo que ela ordenara, e com um olhar de quem havia feito coisa errada. Catarina franziu o cenho sem entendê-la, voltou a olhar o embrulho e a andar para um pouco mais perto dele, levou as mãos à boca e soltou um gritinho pálido, parou.
Era um pássaro, o embrulhinho era um pássaro! Um filhotinho largado. Estava morto, ela pensou, e ia dando meia volta afastando a mente daquela morbidez, quando o embrulho mexeu a cabeça e ofegou. Como movida à eletricidade, correu para perto dele.
São Longuinho, estava vivo! Respirava, pulsava vivacidade em suas veias!
E aí? O que fazer com ele?
Tiraria o dali, e rápido! Dar-lhe-ia água. Muito bem, é só pegá-lo e... Pegá-lo? Aquela criaturinha molinha que podia estar machucada? Além do mais, suas garrinhas prediam-se na rede velha de tal forma, com tal brutalidade e delicadeza. Porém, teria que pegá-lo, de um meio ou de outro, nem que tivesse que levar a rede velha junto, mas, como seria melhor se não tivesse! Então, o jeito era tirá-lo de lá.
Catarina ajoelhou-se ao lado do pássaro e foi puxando garrinha por garrinha da rede. Ele estava tão assustado que nem reagia, durante toda aquela demorada e dificultosa operação de desgrudá-lo da rede, ele não ousou fazer outra coisa se não exercer a apatia.
A menina sentia o suor escorrer pela testa, que medo de machucar aquela coisinha, e que nervoso daquelas pincinhas que se encolhiam ao desprendê-las! Se pudesse ao menos secar a testa. Tremeu ao ver suas patas se contorcerem tanto ele quanto ela. E, logo, estava livre, na verdade, não exatamente livre, já que agora estava agarrado aos dedos magricelos de Catarina. Muito bem, onde havíamos parado? Ah, sim! A água.
Catarina se pôs de pé, o passarinho mexeu a cabeça e seu coração novamente pulsou rápido, bem como havia feito ao encontrar a menina, só que, agora, aquilo não era bom sinal, já sabia que estava vivo, então, estava vivo e assustado. Tudo que Catarina menos queria era que ele criasse medo dela, queria tê-lo como amigo.
Fim

Se não, vejamos. Acho que depois do Gato Pardo me faltou muito toque. Está certo que meu lado mais figurado vem aflorado, timidamente. Só que sinto que me falta, por incrível que pareça, amargura para mais histórias. Entretanto, por hoje, prefiro estar no mínimo alegre.

Outra pequena história

terça-feira, 30 de outubro de 2007

O que deu em mim para colocar uma após a outra? Estaria eu ficando louca? Pois bem, de uma forma ou de outra, acabei por postá-la.

O Rosa do Cinza
Lembro-me bem de minha infância, na verdade, não muito bem, mas quase. Minha infância não faz muito mais que cinco anos, todavia parece estar muito mais distante.
Eu tinha dez anos enquanto corria pela rua acinzentada de uma cidade acinzentada com meu irmão ao meu encalço. Ele ainda vive ao meu encalço, menos chato e mais piedoso do que era.
Eu era brincalhona e adorava correr do meu irmão, ele apenas bufava me seguindo, ele não gostava de me perseguir quando eu fugia e dizia que eu era muito irritante, além de teimosa. Embora, também dissesse que me amava muito e que eu era a única estrela no céu dele, eu era a única coisinha que resistia e ainda sorria no meio da guerra, diferente do resto de toda a família que morrera, diferente do resto de todos os amigos que chorava. Gostaria de ainda estar dessa forma nos conceitos dele.
Nós viajávamos a cidade de cima a baixo à procura de lugares onde eu poderia cantar, íamos de uma casa de show à outra, não achávamos muita coisa, pois, como era guerra, ninguém se importava muito com cantar e sorrir e coisas do gênero. Não demorou muito para eu ter que cantar nas ruas, era pobre e cansativo, mas nos ajudava o bastante.
Todo dia eu corria pelas ruas antes do sol nascer e, fugindo do meu irmão, escolhia um local aconchegante entre as flores acinzentadas mais quentes que havia e sentava-me para cantar. Meu irmão, ao me alcançar, pegava seu violão, tirava umas notas e pedia para que eu inventasse uma letra qualquer, eu pensava em como me sentia e criava uma. Eram canções bobas e com um vocabulário bem limitado, mas acho que passavam com sinceridade o que queriam passar, porque as pessoas paravam para me escutar e me davam moedas, notas, ou até mesmo rosas. Foi em uma dessas canções, enquanto minha voz corria e escorria pelas notas de uma música triste sobre mulheres e crianças solitárias longe de seus maridos e pais, que um homem idoso me chamou para junto dele e me entregou seu cartão. “Essa, essa voz é linda, por favor, procure-me, irei arranjar-lhe um emprego digno dessa voz.”, eu me recordo dele ter dito. Depois disso ele me deu uns trocados e foi embora, eu e meu irmão ficamos parados olhando para, em parte, o cartão e, em parte, o idoso que desaparecia pela rua. Eu estava muito feliz, mas meu irmão estava hesitante, ele achava o homem “muito suspeito”, como dizia.
Depois de eu insistir muito mesmo com o meu irmão, consegui que fossemos procurar aquele homem. Fomos ao endereço que dizia no cartãozinho que nos levou a uma casa meio maltratada, ficamos ali, olhando um para o outro, meu irmão estava de braços cruzados segurando o cartão do homem numa das mãos, seus olhos recaídos sobre meu rosto como se me censurassem dizendo: “olha aonde nos trouxe”, e imagino que era realmente isso que ele queria passar.
“Eu já lhe disse que não quero ir, Anna, vamos embora que não precisamos da ajuda dele.”, ele teimou com força.
Eu o ignorei e dei um paço à frente. Ele se postou na minha frente rapidamente, esbarrei nele. Eu tentei passar a sua frente, mas ele me segurou pelos braços.
“Não! Eu já disse que vou, minha voz é a única coisa que pode nos ajudar nesse mundo e vou usá-la!”
Apenas me segurava e me ignorava.
“Deixe-me passar! Deixe-me passar, Ryan!”
E comecei a dar uns leves golpes em seus braços para que ele me largasse, eu era pequenina em comparação ao meu irmão e ele me segurava com uma facilidade extrema o que me deixava sempre muito aborrecida.
“Por que você não quer me deixar ir?! Por quê?!”
Ele continuava a me segurar e a me ignorar, eu ficava tão furiosa que meu rosto já estava vermelho e meus olhos marejados. Eu tinha insistido a semana toda para que fôssemos e, agora que estávamos lá, em frente aquela casa, ele não queria deixar.
“Eu só quero nos ajudar, deixe-me passar! Pare de me ignorar! Por que você não quer me deixar ir?! Pare de me ignorar!”
E, quando eu ia dar-lhe um chute na canela, ele gritou:
“Nem pense nisso!”
Eu quase nunca via meu irmão irritado e vê-lo assim me dava muito medo, então eu me inquietei, abaixei a cabeça, chorei baixo. Ele se ajoelhou e me olhou firme nos olhos.
“Eu vou explicar-lhe. Na guerra ninguém em sã consciência se importa com diversão, música, nesse tempo isso é só para os grandes homens. Então, por que um homem, idoso ainda por cima, iria se importar em arrumar um emprego para você? Ele não é rico, não é político!”
Não posso negar que meu irmão não tinha razão, mas eu imaginava que, se era para correr risco por algo, eu correria risco por algo que me prometia uma vida melhor, ao menos. Então, como eu não tinha nada a dizer, continuei de cabeça baixa.
Meu irmão se levantou e me deu as costas, fazendo o caminho de volta de onde viemos, eu continuei ali, vendo que ele não me esperaria e nem me chamaria.
Quando ele já estava a mais de seis metros de mim, minha cabeça voltou a funcionar como antes: eu queria entrar, queria falar com aquele senhor. Então, resolvi não hesitar mais nem um segundo, caso o fizesse meu irmão me impediria novamente, corri em direção à casa maltratada e me esgueirei até a campainha. Toquei.
Ao ouvir o som titilante ecoando por toda a casa, meu irmão se virou imediatamente, seu rosto estava vermelho e concentrado em mim, ele veio até mim com os pés batendo, e, quando ia me arrastar pelo braço rua a fora, a porta se abriu.
Olhei para a senhora que atendia a porta com um sorriso de orelha a orelha, meu irmão não havia me impedido, e ele olhou para ela com uma expressão mista de raiva e espanto.
“Podem entrar.”, ela nos convidou.
Fim

O que posso dizer dessa história? A princípio, amo seu título, por isso eu acharia interessante, ao menos, explicá-lo.
Bem, eu a criei em um devaneio antes de dormir, lembrando-me de uma música que amo: Esquadros. A voz da Adriana Calcanhotto passando por entre cada sílaba parece chocolate derretendo calmamente, ou uma certa escritora andando por ruas em preto, cinza e branco. Da minha segunda sinestesia surgiu o título, o rosa calmo, doce e amável, surgindo do cinza pelos olhos de uma garota.
No fim das contas, dentre todas as minhas histórias, esse é a que recebe menos meus prestígios. Mas, nem por isso, deixa de ser amada.
Tenha amor por si mesmo. Minhas histórias fazem parte de mim.

Uma pequena longa história

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A pedidos de um amigo meu, hei de postar aqui as minhas histórias, uma por vez. Fiquei muitíssimo agradecida ao saber desse pedido dele, e, é claro, ainda estou.
Como não sei qual deveria ser minha ordem de postagem, resolvi colocá-las de acordo com qual coloquei primeiro no DeviantArt (link).

A Escritora
Malditos dias de inverno, eles deixam meu trabalho mais difícil de ser feito e mais deprimente ao ser feito.
Morando no lugar que moro, um chalé singelo de cinco cômodos, confortável, no meio da floresta, o frio se abate sobre minha pequena morada de tal forma que só me resta cobrir-me de mantas e sentar-me em frente à minha querida máquina de escrever para digitar palavras tristes e cansadas.
Fábulas, contos, estórias, todas movidas à tristeza da solidão.
A vida poderia ser uma longa primavera, não acha? Como aquela que passei junto do querido que amei.
Agora a neve bate em minhas janelas e portas geladas convidando-me para um passeio sem volta, como diriam os mais sensatos.
“Acho que irei de encontro à neve.”
Levantei-me de minha escrivaninha, largando a máquina de escrever e as mantas pelo chão, peguei um sobretudo e enrolei-me nele. Calcei minhas botas e saí para mais uma de minhas insanas aventuras em busca de inspiração.
Andando pelas minhas próprias trilhas, observando os flocos de neve cair. Alguns dizem que não há dois flocos de neve perfeitamente iguais, e acho que estão certos, apenas um segundo para mudar tudo e todos. Um segundo, um dia, digam como quiser, para quebrar um coração em muitos pedaços e vê-lo sangrar para nunca mais ser o mesmo.
Numa das trilhas mais íntimas da floresta, parei por uns instantes, sentando-me num tronco morto de uma árvore.
Ouvi um som diferente do habitual, um miado, baixo, tristonho. Olhei atentamente para a direção do miado e vi, entre as folhagens, um gato pardo.
Gatos pardos são mais interessantes que os negros, acho eu, em seus nomes há um toque de sensualidade fora do comum, eles me levam a escrever alucinadamente.
Curioso, ele me olhou, meio medroso ele se aproximou, deveria imaginar que, sendo eu boa ou má, ele não teria nada mais a perder. Ronronou o mais alto que pode, tentando demonstrar um afeto que não sentia por mim, e se esfregou mansamente em minhas pernas magras.
Peguei o bichano no colo, ele já era um adulto, era magro e alaranjado, tinha os olhos mais azuis que já vi em toda minha vida. Eu levei-o para meu chalé e dei-lhe comida.
Ele se apegou a mim e eu a ele.
Era saltitante, alegre, mas a neve trazia tristeza a seu olhar. Ele a observava de uma forma diferente do normal, às vezes ele parava em frente à minha janela e ficava olhando a neve cair por muito tempo.
Pela amargura que ele sentia na neve, dei-lhe o nome de Yoku, que significa “aquecer-se ao sol”... Acho que combina com meu solitário gatinho, pobre gatinho.
Pela manhã de um desses dias de inverno um pouco mais cálidos, eu notei, intrigada, a ânsia com a qual ele se esgueirava pela casa à procura de uma brecha de sol. E, quando via que não podia alcançá-la, ele desistia, se deitando com o coraçãozinho felino pesado.
Isso acabou me dando uma inspiração para um conto. Sentei-me junto de minha máquina de escrever, e comecei a digitar. Yoku se juntou a mim, deitando no meu colo entre as minhas mantas, a maquininha do rom-rom em seu peito funcionando, esquentando meu colo e o meu vazio chamado alma.
“Não tenho ninguém como você há tantos anos, Yoku.”
E acariciei suas bochechas. Ele esticou o pescoço e ergueu os bigodes com orgulho de sua própria existência.

O Gato pardo

Os dois andavam lado a lado pelo bosque, amigos de infância, unidos por laços familiares e amorosos intermináveis. Dois garotos, sim, dois garotos apaixonados um pela presença e vida do outro.
Amantes inseparáveis até onde a vida pudesse deixar, até onde o “para sempre” que o mais atrevido sussurrava no ouvido do outro pudesse durar.
As mãos entrelaçadas, o olhar feliz. Eles se sentaram no chão verdejante ainda molhado de orvalho, e viram o sol nascer naquele último dia de outono. No dia seguinte já seria inverno e o tempo dizia isso por si só.
Atrevidamente, ele acariciou os cabelos loiros do amigo, puxou, beijou-lhe a face, o outro corou. “Era um menino inocente,”, ele pensava “apenas um menino inocente.”. Ele não iria fazer muito mais que aquilo, não queria ferir o coração de seu querido loiro.
Uma jovem observava os dois, os olhos se movimentavam nervosos e o coração batia movido a um rancor e ciúmes inesgotáveis.
“Ele me deixou para estar junto desse loiro maldito?!”, ela perguntava para si mesma.
Infelizmente aquela jovem era cruel demais, e sabia demais. Todo dia e toda noite ela amaldiçoava o loiro, desejando-lhe a morte. Mas Deus é misericordioso onde pode ser e, ao invés da morte, Deus conseguiu fazer com que o loiro apenas se transformasse em um gato.
E aquilo ocorreu naquele momento mesmo, no nascer do sol do último dia de outono. O loiro caiu inconsciente no colo do amigo.
A garota se controlou para não urrar de felicidade, e o amigo apenas conseguia sacudir o outro.
E, então, ele virou um gato.
“Gato pardo?”, o garoto se perguntou franzindo o cenho.
“Por que virastes um gatinho pardo?”
Ele baixou os olhos e ficou olhando o gatinho pardo acordar vagarosamente em seu colo. O gato o olhou e se encolheu com medo.
“Não te lembras mais de mim?”
Ele acariciou o bichano, este ronronou.
E os dias se passaram assim, carícias calmas e barulhinhos doces. O gato pardo não se lembrava de nada, mas ainda sentia amor por quem, agora, era seu dono. Entretanto aquele felino tinha medo de uma coisa, algo que caia devagar e sereno, a neve.
Aquilo parecia recordar-lhe o último dia de outono e o entristecia, pois ele nunca mais poderia ser quem era e amar de verdade aquele rapaz.
Um dia, já no final do inverno, alguém bateu na porta e o garoto foi atendê-la, todavia, por mais que chamasse por alguém, ninguém respondia. Deu de ombros e voltou para seu quarto, chamou por seu gatinho pardo, mas ele não vinha.
Ele chamou de novo.
Nada.
Ele procurou em seu quarto.
Nada.
Na sala.
Nada.
E em toda a casa. Mas nada de seu gatinho pardo aparecer.
É que ele, agora, estava preso dentro de uma sacola de pano, sendo carregado pela jovem.
E ela o levava para o meio de uma floresta, o deixava lá, sozinho, e voltava. Aquela garota fazia isto porque, mesmo tendo virado um gato, era para o loiro que o seu amado mais dava atenção. Ela não poderia permitir aquilo, aquilo era uma prova de amor terrivelmente forte.
Ainda dentro da sacola, o gatinho miava desesperado. Quando finalmente conseguiu sair, se viu perdido, na floresta, a neve cobrindo todo o chão, caindo calmamente.
Ele se encolheu num canto, com medo da neve.
E ficou lá esperando pelo seu dono amado.
Enquanto isso o jovem estava em seu quarto esperando pelo seu Gato pardo.

Ao terminar minha mais nova estória, coçava os olhos sentindo que Morfeu estava prestes a passar por mim.
Yoku já cochilava em meu colo.
Olhei através da janela do outro lado de minha sala, a janela que fica ao lado de minha estante recheada de livros, e vi um garoto de cabelos negros chamando por alguém.
Ele baixou a cabeça e suspirou, tinha os olhos marejados. Deu meia volta e foi embora para nunca mais.
Quando realmente abri meus olhos, constatei que tinha cochilado junto de minha mesa de trabalho.
Yoku já não jazia mais em meu colo, ele estava junto da janela ao lado da estante observando a neve cair, arranhando a janela com suas patinhas acolchoadas de gato, miando daquele jeito infeliz e gemido que gatos miam.
Levantei-me e parei ao seu lado, observando a paisagem com ele.
Ele parou de miar, observou-me e se esfregou carinhosamente em mim.
Não havia mais aquele vago sentimento em seus olhos, havia sumido, havia sido esquecido novamente. Como o loiro que havia esquecido de seu amado ao se tornar o Gato pardo, ele só ronronava e vivia superficialmente, até encontrar a neve.
“Mas que imaginação a minha!”, pensei.
Fim.

Caramba, quando leio essa história fico muito feliz, gosto muito dela. Mas, ao mesmo tempo, sinto um arrepio correr pela minha espinha, não seria um tanto bizarra e infantil
? De qualquer forma, gosto da imagem da escritora solitária na floresta, pois, em dias tristes, me sinto assim como ela.

Ser humano?

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Hoje acordei com um estranhíssimo bom humor. Apesar do dia cansativo de ontem, tive forças de me arrastar para fora da cama e de encarar o nascer do dia com um largo sorriso. Fui à escola como sempre e presenciei um fato que me deixou com o cérebro rodando o dia todo.
Havia acabado de me sentar junto de minha amiga, no banco da escola, e as duas esperávamos o sinal tocar. Então, distraídamente, ouvi um trecho de conversa de um grupo ao nosso lado. A garota contava uma história, que havia ocorrido ali na escola mesmo: ela estava passando pelo recreio e esbarrou numa pessoa, ela se desculpou, mas aquela soltou um palavrão.
Senti-me congelar, e, contraditoriamente, ao mesmo tempo, corar. Eu tinha passado por um fato parecido: lá estava eu, passando pelo recreio, entre mochilas e crianças correndo, as pessoas passavam por mim como se eu fosse nada. Então, levei um grande esbarro de uma garota, fiquei irritada e xinguei alto. Não havia escutado desculpas nem perdões, apenas, como uma pessoa tola, xinguei.
Haveria sido eu aquela mal educada? Eu passei o dia todo pensando, minha cabeça se remoía e, eu que havia acordado de tão bom humor, me afundava na vergonha.
Desde meus primórdios, nunca aceitei ser uma humana, nunca aceitei ter que sentir o que eles sentem e agir como eles, acho tão sem graça, sem vida e sem ideais; acho eles tão tolos, medíocres. Entretanto, ao mesmo tempo que eu acho-os assim, eu ajo como eles, pior até.
Ser humano é cometer erros? Ser humano é sentir dor? Se for eu sou apenas mais uma deles.
Ser humano é ser tolo? É ser presunçoso? É cometer ao menos um dos pecados diariamente? Se for assim eu sou apenas mais uma deles.

Não tive coragem de saber se a garota era eu, mas queria desculpar-me com quem eu cometi tal atrocidade.

Adeus, Rio...

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Michi to you all~Alüto

Daitai itsumo doori ni
Sono kado wo magareba
Hitonami ni magire komi
Tokete kieite iku

Boku wa michi wo takushi
Kotoba sura nakushite shimau
Dakedo hitotsu dake wa

Nokotteta, nokotteta
Kimi no koe ga

Warau kao mo, okoru kao mo subete
Boku wo arukaseru

Kumo ga kireta saki wo
Mitara kitto

Nee, wakaru deshou? (Nee, wakaru deshou?)

Essa música me faz lembrar de tudo que deixarei para trás ao seguir em direção a São Lourenço, MG, para uma viagem de congelar os ossos.
Coisas, estas, entituladas a seguir:
Oito horas de treino de ginástica olímpica, oito horas da coisa que mais amo em todo mundo...
Minha amável, porém um tanto assassina, calopsita Catina.
Toda a carnificina das favelas cariocas.
Meu querido quarto com meu querido travesseiro.
Suco de abacaxi com hortelã.

Só de lembrar dessas coisas sinto vontade de ficar (menos, é claro o item em qual consta "toda a carnificina das favelas cariocas"...), me esconder no meu armário e ficar...
Meus queridos amigos que ficam, para vocês deixo um abraço, a saudade e a inveja, pois vocês continuarão aqui, nesse fim de mundo chamado Rio.

Bom dia, são onze e cinquenta e três da manhã, e essa foi mais uma de minhas postagens insossas.