Vamos brincar de roda.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Estava segurando minha xícara de chá com a mão direita. Na esquerda ia Parvati.
Levando a areia do parquinho dentro de suas sandálias, a pequena se arrastava com a cabeça voltada para o chão.
Ela tinha dito, "Mali, vamos ao parquinho.", e eu falara de volta, "Mas, Parvati, está frio e não haverá ninguém por lá. Para que ir ao parquinho hoje?".
"Ora, Mali, pensei que fosse mais esperta!", disse-me em seguida, levando as mãozinhas à cintura. "Hoje os balanços estarão vazios por causa do frio! E não haverão meninos chatos correndo na frente deles. Quando é que os balanços estão assim?! São as condições ideais para se balançar!"
Concordei calada, Parvati é uma boa observadora.
"E o vento deixa tudo mais gostoso.", pensara eu.
"E tem a brisa.", dissera ela. Nossos pensamentos coincidiram novamente, e normalmente.
Então, fui levada ao parquinho, e, agora, enjoada de tanto balançar, Parvati decidira sair e íamos voltando para casa.
Ela olhava para a areia que ia arrastando consigo, com desgosto dos grãos que fincavam em seus sapatos. De repente, ela soltou minha mão e correu uns metros à frente.
"Ora, o que houve?", deixei minha xícara de chá no chão e fui correndo atrás de Parvati.
Aproximei-me, ela tinha se agachado e fincara os olhos em algo caido no chão.
-Aqui, Mali, olhe isto! Olhe! É... é...
Aproximei-me mais ainda, junto dela, eu já sabia a resposta para seu pequeno enigma. Era uma pedrinha branca, com partes pontiagudas, curiosamente polida.
-É um dente. Mesmo. - falei a ela.
-Sim, eu sei.
Nós sabíamos que sabíamos. Mas para Parvati era tamanho impressionante seu achado que ela precisava expressar-se sem palavras.
-Estou sem palavras. - falou.
-Na verdade...
-Eu sei que "estou", "sem" e "palavras" são decididamente palavras. Sim, eu sei que as tenho.- atalhou. -Você me entendeu.
Realmente, eu havia entendido.
-Só que é divertido corrigir. Especialmente você, irmãzinha.
-Você é irritante, Mali.
~

Descobri a descobrir

Descobri ontem duas coisas:
Primeira coisa- não tema, com tio Pavan não há problema. Só com tio Charles, mas está tudo no texto.
Tanto que foi no texto que estava a segunda coisa.
Segunda coisa- letras são desenhos. Os escritores, então, são os melhores desenhistas.

E descobri hoje outras coisas:
Coisa- não chore, ainda há esperança.
Outra coisa- não deixe as respostas em branco, como foi retrocitado, ainda há esperança.

Mas, enfim, deixando isso de lado, meus rascunhos de hoje foram nada-sensatos. Rascunhei na última meia hora de fisioterapia (tempo), na folha do meu bloco de notas (lugar). Não, não no meu Death Note (arma).
E, como todo rascunho que se preze, não tem título.

~
Eu acho, mas nunca poderei ter certeza, que ela me disse seu nome. Então, como não me lembro dele, ei de inventar um, mas não poderá ser um qualquer porque ela não era uma garota qualquer.
Melissa.
Não pergunta por que, também não poderei ter certeza da minha resposta, e, por mais que eu seja uma boa inventora e mentirosa, não haveria motivo de dá-la.
Enfim.
Melissa chegou aos trancos e barrancos à minha casa, com uma garota faladeira amarrada aos seus tornozelos, esta para a qual Melissa não dava muita importância à conversa. Apesar de sempre responder. Ela estava com a mente ocupada com coisa mais apreciada.
Parou em frente à minha porteira cor de terracota.
Respondeu qualquer coisa à morena companheira.
"Onde encontro bisnagas.", veio depois.
"Ahn?", eu realmente não compreendi, com a mangueira na mão, enquanto calmamente regava meu jardim, uma estranha parara a mim e, agora, me perguntava sobre lugares e bisnagas.
"Uma... Bisnaga?", perguntei incrédula.
"Isso mesmo."
E parecia decidida a arrumar uma.
"Uma, não. Várias bisnagas.", consertou-me e a si.
Mas eu fiquei desconsertada.
Ah. Várias bisnagas, quem diria?
Bom, eu não saberia dizer quem mais naquele mundo perguntaria por várias bisnagas, assim, elouqüentemente. Nem mesmo a tiracolo morena, faladeira e amarradora a tornozelos parecia que o faria, tanto que, criando-me um dramático paradoxo, conservava-se calada.
De qualquer forma Melissa, ela, havia perguntado e seu rosto e tranças loiras, imponentes, me diziam que eu deveria responder. Correto.
"Bem, acho que... Ah, numa padaria, claro!", fiquei feliz em dar-lhe uma boa, e inclusive bem coerente, resposta.
Ela deu um sorrisinho bobo, e meio enrusbecido, sabe? Bonitinho como quando uma criança, daquelas que acha já madura, faz quando se depara com o óbvio disfarçado de mistério.
"Padaria, claro!", mas ainda não era claro, era óbvio disfarçado. "E onde posso achar uma...", ela pareceu buscar o nome na memória, "padaria?...".
Esta já era uma mais fácil, e com mais sentido.
"É só você virar a direita e descer a ladeira para subir de novo."
Entretanto, algo não estava legal, sentia-me desconfiada, "com a pulga atrás da orelha é como estou", meditei em como me sentia, profundamente, as duas se distanciavam de mim e da minha porteira.
Olhei para o céu, elas já viravam a esquina e seus cabelos parecia farfalhar como mãos dando adeus e agradecendo o favor, coisa que a distraída Melissa se esquecera de fazer. Ou não vira necessidade em fazer.
Algo.
"Esperem!", eu gritei. "Vocês não vão encontrar a padaria aberta! Não às onze da noite!"
Melissa girou-se nos tornozelos, suas tranças chicotearam o ar, e ela me observou. Com um rosto meio: "padaria-não-aberta? Onze horas?" e "Você está enxarcando as suas plantas.", tudo num misto.
Tudo ao mesmo tempo.
No girar de Melissa.
Fim do trecho 1

Continuarei na fisioterapia.
Continuarei (n)a vida.
Kisu!

Melo?

sábado, 12 de abril de 2008

A gente tenta, né?
E tenta de novo, pois somos teimosos... feito(s) crianças!

"Ai, mas és criança
E nos causa trabalho, nos causa tamanha andança!
Movimenta nossas pernas,
cria dores na nossa vida mansa
Tu nos fazes perder a pança!

Parvati, Parvati,
tu és criança!
És chá doce de erva mate,
és o amargo do chocolate.
Tu bates e rebates, parte, arte
e tudo isto que deseja:

que teu filho seja
um misto de trigo e milho,
Minha mãe donzela.
Pois tu és criança
E tua infância é bela.

Tu deitas e espreitas pela janela,
mas nem percebes que se passa.
Pois quanto mais anda, mais se afasta.
E se aproxima a vida nefasta.

Tu se esqueceste
do belo e do elo
e agora arrasta
pasta, infância e melo."

...Para quem gostou, fui eu mesma quem fez...
Agora, para os horrorizados, toquem na casa do vizinho,
danado, ele gosta de escrever!
Kisu!

Domingo Ensolarado

domingo, 6 de abril de 2008

Hoje, eu virei para a janela do meu escritório e vi o Sol.
Bom, todos sabem, inclusive eu, claro, não sou tão doida, que o domingo não está ensolarado e que o Sol não está aparecendo por nem um brechinha de folha.
Mas para mim o domingo está ensolarado.
Quero dizer, tenho muitas coisas para fazer, muitas que não gosto de fazer, inclusive, mas o domingo pode ser ensolarado quando bem queremos.
Ou o sábado pode se fingir de domingo.
As quartas feiras podem cantar blasfêmias de terças.
E até mesmo as segundas (caramba! até as segundas!) podem ser agradáveis, mesmo elas sempre querendo ser desagradáveis. Pois quando eu ouço músicas de domingo, eu me dou ao luxo de me vestir de verde (a cor da grama banhada pelos raios de Sol, cor que só conseguimos ver nos domingos, quando não estamos correndo para ônibus ou falando sobre negócios e ações de nossa empresa).
Sabe, o domingo quer se fazer cinza hoje, o tempo trama isso, as passagens de aviões que deram para meu pai tramam isso, tudo conspira contra mim, meu estômago e minha ânsia de vômito.
Mas, eu quero meu domingo azul.
Eu quero. E vou ter!

Olha, só, que loucura! Um trecho de ontem, sábado:
"Estou vestida de domingo num dia de sábado.
Pior, estou vestida de
Um domingo que amanhã não vou ter.
Estamos numa frente fria,
e as nuvens que vêm querem chover.
Mas nada impede do meu domingo gelado ser ensolarado
E nada impede do meu sábado ser o domingo passado.

Que os céus se abram
E que deixem aparecer
ó, o Sol!
Este é o meu desejo!

Pois, é tão simples,
não existe ensejo!"

Haha! Isto me remete aos meus afazeres... Tenho de estudar.
Bom domingo, ensolarado para os solteiros e fechado de nuvens cantantes (como canta Brendon com apoio de Ryan, bateria de Spencer e baixo de Walker) para os amantes, para poderem se aconchegar em si mesmos.!

p.s.: peço para meu pai que levante-se logo e pegue logo o avião, para assim retornar o mais breve possível. Já estou com saudades.
Kisu!

Versinhos

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Gente, hoje vim até aqui para ousar um pouco... Ei de espor aqui alguns de meus versos, espero que eu não traumatize ninguém! Estou apenas tentando alguma coisa, juro!
Bom, senão, vejamos.

Es, daß uns verbinden Sie, trennt uns.
"Aquilo, que nos une, nos separa."

Nós nos criamos nós.
Separamos nós, viramos vós.
Mas nos amamos, amando sós.
Então, voltamos, unimos, somos. nós.

Quatro versos! Quatro versos! Que pobreza, que desgaste, que ultraje!
Eu falei que estava apenas tentando... O motivo de eu ter criado essas frases malucas é estar desenhando cada uma delas. O título já foi e estou no rascunho da primeira, espero completar o resto. Mas, como vocês sabem, não é nada interessante, apenas bobagem.
Como sempre, espero que tenham gostado, e acho que gostaram! Porque a minha aparição foi tão rápida!
Não vou chatear vocês me prolongando por aqui.
Bom, Wiedersehen!
Bom, nos vemos!

(seria o Babel Fish confiável? E Roberto Justus, um robô?)

O Desfibrilador

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

"Senhores, peço encarecidamente para que me passem o desfibrilador, antes que o paciente se vá!"
Ai, ai. "Reviveu!"
Depois de muito tempo, estou de volta. Não acho que sentiram falta, afinal, livros é o que não nos faltam por hoje! A mim, então, tenho uma dezena deles para ler!
Entretanto, eu senti falta de dar o meu ar desgraçado por aqui. Vejam só, neste meio tempo dei uma pequena mudada no template do meu blog. Agora, ele não é o "Et le Chat Noir?" e apenas isto, ele virou a versão de uma época, ele está numa estação que desejo ser época de colheita o ano todo. A estação, ou melhor, a versão "Breath.less".
A cada estação teremos a falta de alguma coisa, desta vez foi a respiração que sumiu, além de mim, é claro! Na próxima, veremos o que vai ser...
Mas, enquanto ela não chega, ficaremos com um texto daqueles meus. Vocês já conhecem a tortura.

A terra infinita

Enquanto todos olhavam para o horizonte com um olhar amedrontado, eu via nos olhos dele uma coragem e admiração motivada por um desejo que, para todos os outros, era extremamente insano.
Meu irmão sempre quis desbravar o mundo, eu respeitava muito suas idéias e ele era, sem dúvidas, o mais genial de todos os pensadores de nossa época. Num lugar em que a terra é dita infinita, onde os mares podem cair sobre nós e alagar nossas casas, um lugar em que Deus manda, é supremo e nós apenas meros pecadores, meu irmão quebrava todas as regras e fugia de suas próprias fronteiras.
Seu sonho sempre foi mostrar para os outros o poder que estava no solo no qual pisamos, e não nos céus, dormindo junto de anjos, e ele dizia que começaria apontando a todos que aquela mesma terra não seria infinita.
“A terra é redonda, mas não é infinita.”, ele falava. “É isso que vou provar, e mais, evidenciarei que não é Deus nem outro humano que faz qualquer importância para este lugar.”
Neste lugar, esta areia e todas estas árvores que vemos em nossas florestas sempre estiveram aqui, desde antes de nossos tataravôs nascerem e até nos morrermos eles continuarão aqui, os grãos de areia salpicando em nossos pés e as árvores imóveis e soberanas. Para ele o tempo de vida deste lugar era tão imenso, tão extenso e esticado, que pouco importava para ele nossa existência e o que faríamos, de forma que nem Deus importava.
“Deus foi criado pelo homem, e junto dele desaparecerá. Ele é uma figura nossa, e não há de ter sido Ele quem teve a idéia de transformar as flores que desabrocham em frutas para comermos, toda santa estação. E, mesmo que tenha sido, Ele nunca teria a capacidade de criar uma terra infinita.”, e ele simplificava para mim, pequeno:
“Se Deus criou tudo, então, esta terra é finita. Mas, se esta terra for sem-fim, como nos dizem os velhos e os padres - hum, também muito velhos -, Deus não é o nosso todo poderoso, pois criar algo assim nenhum ser é capaz, principalmente se for este ser que age como nós e nos pune por sermos nós. Alguma dessas coisas tem de estar errada. Provarei isto.”
Então, num dia em pleno outono, meu irmão partiu. Com seus cálculos e dinheiro enfiados numa bolsa, suas roupas e comidas em outra, ele foi andando com duas bolsas debaixo de um braço. Chegou perto de mim, e com um rosto sereno, me abraçou. Eu pedi a ele que me levasse junto, andaríamos o mundo juntos e voltaríamos para casa, depois de toda a volta arredondada, como ele sonhava em fazer, dada. Bom, meu irmão estava certo, não poderia levar sob seu olhar uma criança de cinco anos, especialmente se o caminho que ela se via fadada a andar era o caminho de um nômade.
Mas, ele também não poderia ter deixado aquela criança, sozinha, na soleira de sua casa o observando ir embora. Ele não podia ter me deixado dizendo o quão minha existência era insignificante, ter me deixado esperando por algo que faria de mim maior, e esperando por ele.
“Um dia, eu voltarei, no entanto, não sinta saudades de mim. Esse tempo que passarei fora é insignificante comparado ao tempo de tudo, como nossa existência, não gaste a sua pequena pensando em mim, ou em alguém assim distante.”
A calça dele fez um suspiro, ao arrastar no chão da rua, chão em que poderia se arrastar por toda uma vida, ou uma eternidade, e se foi. Sua calça e meu irmão sabiam daquilo, eu naquela época não sabia que ele poderia morrer andando por aí. Foi minha mãe quem me disse esta verdade, quando eu já era um pouco mais velho e fazia o contrário do que meu irmão me falara, enquanto esperava por ele voltar sentado no tapete de nossa entrada.

Fim.

Bom, esta eu criei hoje mesmo, durante uma aulinha de Geografia. Nunca pensei que as frases do André fossem me inspirar, mas não é que elas me deram um empurrãozinho, mesmo? Como sempre, espero que tenham gostado e agradeço muito por lerem-na.
Muito obrigada!
Beijos!

Uma troca

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Pela péssima história passada, aí está algo que espero melhorar meu conceito entre vocês. Ah, senhores, o meu dia tem se arrastado como o da pobre menina Joana. Queria tanto meu livrinho, também, para não chorar...:

Suplicante Solidão e as Criaturas Asmáticas
As velas bruxuleavam fazendo sombras na parede, naquela manhã, naquele dia fatídico.
E a chuva caia escassa, em pingos silenciosos e gelados.
Joana se esgueirava pelo corredor de pisos esfriados de sua casa.
Também não havia ninguém em casa, todos trabalhavam, ela estava em férias escolares e permaceria assim por mais um mês.
Uma goteira pingava insistentemente dentro da própria casa, na noite anterior a chuva fora acompanhada de trovões, trovoadas, tudo de que tinha direito. Inclusive um vento forte, culpado por Joana ter de passear pela casa segurando uma vela, pela falta de luz.
Sem muita demora, ela designou um potinho de cerâmica que guardava as jóias de sua mãe para segurar a vela por ela, já não agüentava mais sentir a cera quente brotar de junto ao fogo, escorrer e queimar lhe a mão.
Era uma manhã realmente vaga, não havia nada a ser feito, em especial, de interessante. Deu mais uns rodopios pela casa e atirou-se aos braços confortáveis do sofá, ela olhou para o relógio numa reza para as horas passarem assoviando, e não rastejando como gostavam de fazer. Queria companhia, calor humano, ela olhou para o relógio e suspirou.
Onze da manhã.
O dia passaria como um morto.
E as vozes seriam como as dele, mudas.
Passou-se um tempo com aquela garota tacada no sofá, na verdade, passou-se muito tempo. Os pensamentos dela vagavam entre os mais diversos assuntos, mas nada muito interessante de forma que é inútil descrevê-los, além do que tediante.
Joana prosseguiu sua dispersão no sofá.
Por mais alguns minutos.
Até seu pensamento passar muito longe dela, e perto de um livro de poesias.
Era um livro com qual Joana criara laços infindáveis, livro que seus pais haviam lhe dado, a pedidos de uma pessoa, e ela lera umas mil vezes, todas elas em momentos de suplicante solidão.
‘SS’, “Suplicante solidão”, traduzira para ela sua irmã adoentada. É, ele era um livro feito para as horas de ‘ss’.
Joana mal se lembrava de seus versinhos, há muito tempo havia deixado-o de lado, não pela falta de mais momentos como aqueles, mas, sim, por ter trocado o livro pelos lamúrios acompanhados das lágrimas.
Agora, o livro cochilava em algum lugar da casa. E sua irmã em algum lugar logo depois do rio que separa esse mundo do outro lado.
Ela sentiu uma pontada que a fez saltar e se sentar reta e firme no sofá, era mais um momento de ‘ss’. Era maior, era um dia de ‘ss’. Sentia falta da sua irmã pela primeira vez em dois meses, ela estava humanamente sozinha numa casa, a única coisa que a acompanhava era uma vela traiçoeira e queimante, e ela já não queria ser envergada pela vontade de chorar que segurara por tanto tempo.
Por muito tempo. Um tempo rasteiro.
Joana foi impulsionada, pegou a vela junto do pote de cerâmica que repousava no sofá. Iria reencontrar aquele livro. Apenas para não chorar.
Enquanto Joana se guiava somente pela intuição, checando os lugares em que imaginava estar o livro, duas criaturas deslizavam por um cômodo assoprando cochichos por seus lábios delgados. Falavam algo sobre um tal livro que queriam para brincar com uma pessoa.
As plumas que as seguiam fugiam de algumas velas para não incinerarem, e elas abriam um armário daquele cômodo deslizo e pegavam um livro, e levavam. Soltaram risadinhas, também sopradas, fazendo as duas parecerem seres asmáticos. Além de malignos, que desta vez realmente eram.
Esguia e rápida, Joana vasculhava todos os cantinhos de seu quarto, primeiro provável lugar onde poderia estar seu tesouro de rimas.
Remexia as prateleiras. Pegava um livro, passava os olhos por sua capa e o colocava de lado. Não era aquele.
Então, pegava outro.
Da capa ela se lembrava bem, era uma capa inesquecível e que havia isto tantas vezes. Pegue todas as lágrimas que Joana já havia chorado, divida o número por cinqüenta lágrimas, mais ou menos, aí estavam quantas vezes ela tinha visto a capa. Umas vinte. Não seria muito difícil se lembrar, e, sim, esquecer.
Era colorida com várias demãos de tinta. Muitas, todas heterogenias, cada uma sobressaltava da outra. Umas eram verde musgo, outras eram pretas, e, umas terceiras, vermelhas. Aqui e ali se via um respingo de tinta, assim como, aqui e ali, as tintas se misturavam formando um tom meio amarronzado. No topo, de branco, o título.
Pegou mais um livro da prateleira, esse era o último, olhou para sua capa. Nada de demãos de tinta, nada de respingos ou de título em branco. E o pôs de volta ao seu lugar.
As criaturas observavam Joana em sua caçada, com umas risadinhas, e com o livro escondido sob suas roupas-pele, umas coisas feito roupas pretas que saiam surgiam de suas peles descoloradas e iam indo e indo pelo ar até desaparecer. Uma delas soprou palavras, numa língua desconhecida, para a outra, as duas riram e a outra balançou sua cabeça afirmativamente.
Elas deslizaram até Joana, que agora remexia com a mesma série de movimentos outra prateleira, arfaram risadas asmáticas e cruelmente derrubaram todos os livros da prateleira sobre a cabeça da garota.
Ela cambaleou inerte a quem havia feito aquilo a ela e inerte a quase tudo ao seu redor. Cambaleou, girou e caiu. Quando recuperou sua consciência, cerca de um minuto depois, olhou ao seu redor e viu um monte formado pelos livros caídos junto dela.
Sentou-se devagar. Massageou a cabeça dolorida e olhou de novo para o monte. Espalhou-os pelo chão do quarto e analisou um por um, nenhum era aquele.
Nenhum.
E não demorou muito, digo, demorou sim, mas sejamos otimistas que nem parece tanto tempo assim, e foi concluído o inquérito do seu quarto. Que nenhum era aquele.
Descobriram suas mãos das roupas que desapareciam como fumaça naquele ar, e fizeram aquele conhecido movimento humano, o aperto de mão.
As duas criaturas. Criaturas asmáticas e sádicas. Apertaram suas mãos de dedos finos e canhestros. E de unhas compridas e esbranquiçadas, assim como ficam as nossas quando falta cálcio, e também quebradiças, como as nossas.
Com seu quarto já tendo sido revistado, desarrumado e arrumado novamente, Joana saiu levando consigo sua vela, e, como papagaios-de-pirata, as duas criaturas roçando em seus calcanhares. Ela ainda sentia o efeito da trapaça, sua cabeça ainda doía e a dor, ao invés de diminuir, parecia aumentar, por culpa dela resolveu tomar um remédio.
Marchou até a cozinha e deixou a vela em seu, agora, pote sobre a mesa.
Abriu as portas dos armários, desfez uma caixa de sapatos na mesa à procura de um remédio de vidrinho escuro. O vidro foi encontrado com excepcional facilidade, em contradição ao livro, Joana o abriu e pegou um copo. Encheu o copo com água, que futuramente não seria mais insípida, e depois pingou umas gotinhas do remédio na água.
Pingaram também umas em sua mão, ela se dispôs a lavá-las, nisso aqueles seres armavam outro trote.
Dessa vez quem ia era a outra coisa, ela chegou perto da mesa e do copo, pegou o vidrinho e deixou espirrar o líquido dentro do copo. Voltou a se postar junto da companheira, e, juntas, as duas assistiram à sua problemática diversão à custa dos outros.
Joana foi de volta à mesa com as mãos umedecidas, passou a mão no copo embebido de remédio, levantou-o e tirou um gole.
Foi uma questão de segundos.
De centésimos, talvez. Para ela cuspir todo aquele gole de volta ao copo.
Pois o remédio em sua quantidade normal já teria um gosto mais amargo que uns limões espremidos juntos, bom, e seu triplo? Era como arrancar a língua de Joana e trocá-la por um limão.
Então, acho que você já deve ter uma noção do que as criaturas fizeram.
Sim, elas riram mais.
E o que Joana fez.
Ela bebeu água, muita água.
E depois tomou o remédio, uma quantidade bem menor do que deveria ser, pois achava que ela tinha exagerado. No fim das contas remédio realmente não fez efeito nenhum.
Parte do Fim.

Sinceramente, não sei se fiz bem ou mal pelo título. Eu criei laços com as Criaturas Asmáticas, cruéis, divertidas, mórbidas e mortas. E também com o nome 'Suplicante Solidão'. Se tudo for de acordo com minha previsão, pretendo escrever umas curtas sobre os nomes que concederam o título a essa história.
E como poderia esquecer? Meu grande agradecimento, pela idéia original da história, uma garotinha que perde seu livro de poesias.:
Djan, amei esta idéia, simplesmente genial! Não sei você, mas fiquei satisfeita com o tosco resultado, espero que eu tenha feito bem. Ah, senhores! Esperemos pela parte dois!, tanto eu quanto vocês.