Melo?

sábado, 12 de abril de 2008

A gente tenta, né?
E tenta de novo, pois somos teimosos... feito(s) crianças!

"Ai, mas és criança
E nos causa trabalho, nos causa tamanha andança!
Movimenta nossas pernas,
cria dores na nossa vida mansa
Tu nos fazes perder a pança!

Parvati, Parvati,
tu és criança!
És chá doce de erva mate,
és o amargo do chocolate.
Tu bates e rebates, parte, arte
e tudo isto que deseja:

que teu filho seja
um misto de trigo e milho,
Minha mãe donzela.
Pois tu és criança
E tua infância é bela.

Tu deitas e espreitas pela janela,
mas nem percebes que se passa.
Pois quanto mais anda, mais se afasta.
E se aproxima a vida nefasta.

Tu se esqueceste
do belo e do elo
e agora arrasta
pasta, infância e melo."

...Para quem gostou, fui eu mesma quem fez...
Agora, para os horrorizados, toquem na casa do vizinho,
danado, ele gosta de escrever!
Kisu!

Domingo Ensolarado

domingo, 6 de abril de 2008

Hoje, eu virei para a janela do meu escritório e vi o Sol.
Bom, todos sabem, inclusive eu, claro, não sou tão doida, que o domingo não está ensolarado e que o Sol não está aparecendo por nem um brechinha de folha.
Mas para mim o domingo está ensolarado.
Quero dizer, tenho muitas coisas para fazer, muitas que não gosto de fazer, inclusive, mas o domingo pode ser ensolarado quando bem queremos.
Ou o sábado pode se fingir de domingo.
As quartas feiras podem cantar blasfêmias de terças.
E até mesmo as segundas (caramba! até as segundas!) podem ser agradáveis, mesmo elas sempre querendo ser desagradáveis. Pois quando eu ouço músicas de domingo, eu me dou ao luxo de me vestir de verde (a cor da grama banhada pelos raios de Sol, cor que só conseguimos ver nos domingos, quando não estamos correndo para ônibus ou falando sobre negócios e ações de nossa empresa).
Sabe, o domingo quer se fazer cinza hoje, o tempo trama isso, as passagens de aviões que deram para meu pai tramam isso, tudo conspira contra mim, meu estômago e minha ânsia de vômito.
Mas, eu quero meu domingo azul.
Eu quero. E vou ter!

Olha, só, que loucura! Um trecho de ontem, sábado:
"Estou vestida de domingo num dia de sábado.
Pior, estou vestida de
Um domingo que amanhã não vou ter.
Estamos numa frente fria,
e as nuvens que vêm querem chover.
Mas nada impede do meu domingo gelado ser ensolarado
E nada impede do meu sábado ser o domingo passado.

Que os céus se abram
E que deixem aparecer
ó, o Sol!
Este é o meu desejo!

Pois, é tão simples,
não existe ensejo!"

Haha! Isto me remete aos meus afazeres... Tenho de estudar.
Bom domingo, ensolarado para os solteiros e fechado de nuvens cantantes (como canta Brendon com apoio de Ryan, bateria de Spencer e baixo de Walker) para os amantes, para poderem se aconchegar em si mesmos.!

p.s.: peço para meu pai que levante-se logo e pegue logo o avião, para assim retornar o mais breve possível. Já estou com saudades.
Kisu!

Versinhos

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Gente, hoje vim até aqui para ousar um pouco... Ei de espor aqui alguns de meus versos, espero que eu não traumatize ninguém! Estou apenas tentando alguma coisa, juro!
Bom, senão, vejamos.

Es, daß uns verbinden Sie, trennt uns.
"Aquilo, que nos une, nos separa."

Nós nos criamos nós.
Separamos nós, viramos vós.
Mas nos amamos, amando sós.
Então, voltamos, unimos, somos. nós.

Quatro versos! Quatro versos! Que pobreza, que desgaste, que ultraje!
Eu falei que estava apenas tentando... O motivo de eu ter criado essas frases malucas é estar desenhando cada uma delas. O título já foi e estou no rascunho da primeira, espero completar o resto. Mas, como vocês sabem, não é nada interessante, apenas bobagem.
Como sempre, espero que tenham gostado, e acho que gostaram! Porque a minha aparição foi tão rápida!
Não vou chatear vocês me prolongando por aqui.
Bom, Wiedersehen!
Bom, nos vemos!

(seria o Babel Fish confiável? E Roberto Justus, um robô?)

O Desfibrilador

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

"Senhores, peço encarecidamente para que me passem o desfibrilador, antes que o paciente se vá!"
Ai, ai. "Reviveu!"
Depois de muito tempo, estou de volta. Não acho que sentiram falta, afinal, livros é o que não nos faltam por hoje! A mim, então, tenho uma dezena deles para ler!
Entretanto, eu senti falta de dar o meu ar desgraçado por aqui. Vejam só, neste meio tempo dei uma pequena mudada no template do meu blog. Agora, ele não é o "Et le Chat Noir?" e apenas isto, ele virou a versão de uma época, ele está numa estação que desejo ser época de colheita o ano todo. A estação, ou melhor, a versão "Breath.less".
A cada estação teremos a falta de alguma coisa, desta vez foi a respiração que sumiu, além de mim, é claro! Na próxima, veremos o que vai ser...
Mas, enquanto ela não chega, ficaremos com um texto daqueles meus. Vocês já conhecem a tortura.

A terra infinita

Enquanto todos olhavam para o horizonte com um olhar amedrontado, eu via nos olhos dele uma coragem e admiração motivada por um desejo que, para todos os outros, era extremamente insano.
Meu irmão sempre quis desbravar o mundo, eu respeitava muito suas idéias e ele era, sem dúvidas, o mais genial de todos os pensadores de nossa época. Num lugar em que a terra é dita infinita, onde os mares podem cair sobre nós e alagar nossas casas, um lugar em que Deus manda, é supremo e nós apenas meros pecadores, meu irmão quebrava todas as regras e fugia de suas próprias fronteiras.
Seu sonho sempre foi mostrar para os outros o poder que estava no solo no qual pisamos, e não nos céus, dormindo junto de anjos, e ele dizia que começaria apontando a todos que aquela mesma terra não seria infinita.
“A terra é redonda, mas não é infinita.”, ele falava. “É isso que vou provar, e mais, evidenciarei que não é Deus nem outro humano que faz qualquer importância para este lugar.”
Neste lugar, esta areia e todas estas árvores que vemos em nossas florestas sempre estiveram aqui, desde antes de nossos tataravôs nascerem e até nos morrermos eles continuarão aqui, os grãos de areia salpicando em nossos pés e as árvores imóveis e soberanas. Para ele o tempo de vida deste lugar era tão imenso, tão extenso e esticado, que pouco importava para ele nossa existência e o que faríamos, de forma que nem Deus importava.
“Deus foi criado pelo homem, e junto dele desaparecerá. Ele é uma figura nossa, e não há de ter sido Ele quem teve a idéia de transformar as flores que desabrocham em frutas para comermos, toda santa estação. E, mesmo que tenha sido, Ele nunca teria a capacidade de criar uma terra infinita.”, e ele simplificava para mim, pequeno:
“Se Deus criou tudo, então, esta terra é finita. Mas, se esta terra for sem-fim, como nos dizem os velhos e os padres - hum, também muito velhos -, Deus não é o nosso todo poderoso, pois criar algo assim nenhum ser é capaz, principalmente se for este ser que age como nós e nos pune por sermos nós. Alguma dessas coisas tem de estar errada. Provarei isto.”
Então, num dia em pleno outono, meu irmão partiu. Com seus cálculos e dinheiro enfiados numa bolsa, suas roupas e comidas em outra, ele foi andando com duas bolsas debaixo de um braço. Chegou perto de mim, e com um rosto sereno, me abraçou. Eu pedi a ele que me levasse junto, andaríamos o mundo juntos e voltaríamos para casa, depois de toda a volta arredondada, como ele sonhava em fazer, dada. Bom, meu irmão estava certo, não poderia levar sob seu olhar uma criança de cinco anos, especialmente se o caminho que ela se via fadada a andar era o caminho de um nômade.
Mas, ele também não poderia ter deixado aquela criança, sozinha, na soleira de sua casa o observando ir embora. Ele não podia ter me deixado dizendo o quão minha existência era insignificante, ter me deixado esperando por algo que faria de mim maior, e esperando por ele.
“Um dia, eu voltarei, no entanto, não sinta saudades de mim. Esse tempo que passarei fora é insignificante comparado ao tempo de tudo, como nossa existência, não gaste a sua pequena pensando em mim, ou em alguém assim distante.”
A calça dele fez um suspiro, ao arrastar no chão da rua, chão em que poderia se arrastar por toda uma vida, ou uma eternidade, e se foi. Sua calça e meu irmão sabiam daquilo, eu naquela época não sabia que ele poderia morrer andando por aí. Foi minha mãe quem me disse esta verdade, quando eu já era um pouco mais velho e fazia o contrário do que meu irmão me falara, enquanto esperava por ele voltar sentado no tapete de nossa entrada.

Fim.

Bom, esta eu criei hoje mesmo, durante uma aulinha de Geografia. Nunca pensei que as frases do André fossem me inspirar, mas não é que elas me deram um empurrãozinho, mesmo? Como sempre, espero que tenham gostado e agradeço muito por lerem-na.
Muito obrigada!
Beijos!

Uma troca

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Pela péssima história passada, aí está algo que espero melhorar meu conceito entre vocês. Ah, senhores, o meu dia tem se arrastado como o da pobre menina Joana. Queria tanto meu livrinho, também, para não chorar...:

Suplicante Solidão e as Criaturas Asmáticas
As velas bruxuleavam fazendo sombras na parede, naquela manhã, naquele dia fatídico.
E a chuva caia escassa, em pingos silenciosos e gelados.
Joana se esgueirava pelo corredor de pisos esfriados de sua casa.
Também não havia ninguém em casa, todos trabalhavam, ela estava em férias escolares e permaceria assim por mais um mês.
Uma goteira pingava insistentemente dentro da própria casa, na noite anterior a chuva fora acompanhada de trovões, trovoadas, tudo de que tinha direito. Inclusive um vento forte, culpado por Joana ter de passear pela casa segurando uma vela, pela falta de luz.
Sem muita demora, ela designou um potinho de cerâmica que guardava as jóias de sua mãe para segurar a vela por ela, já não agüentava mais sentir a cera quente brotar de junto ao fogo, escorrer e queimar lhe a mão.
Era uma manhã realmente vaga, não havia nada a ser feito, em especial, de interessante. Deu mais uns rodopios pela casa e atirou-se aos braços confortáveis do sofá, ela olhou para o relógio numa reza para as horas passarem assoviando, e não rastejando como gostavam de fazer. Queria companhia, calor humano, ela olhou para o relógio e suspirou.
Onze da manhã.
O dia passaria como um morto.
E as vozes seriam como as dele, mudas.
Passou-se um tempo com aquela garota tacada no sofá, na verdade, passou-se muito tempo. Os pensamentos dela vagavam entre os mais diversos assuntos, mas nada muito interessante de forma que é inútil descrevê-los, além do que tediante.
Joana prosseguiu sua dispersão no sofá.
Por mais alguns minutos.
Até seu pensamento passar muito longe dela, e perto de um livro de poesias.
Era um livro com qual Joana criara laços infindáveis, livro que seus pais haviam lhe dado, a pedidos de uma pessoa, e ela lera umas mil vezes, todas elas em momentos de suplicante solidão.
‘SS’, “Suplicante solidão”, traduzira para ela sua irmã adoentada. É, ele era um livro feito para as horas de ‘ss’.
Joana mal se lembrava de seus versinhos, há muito tempo havia deixado-o de lado, não pela falta de mais momentos como aqueles, mas, sim, por ter trocado o livro pelos lamúrios acompanhados das lágrimas.
Agora, o livro cochilava em algum lugar da casa. E sua irmã em algum lugar logo depois do rio que separa esse mundo do outro lado.
Ela sentiu uma pontada que a fez saltar e se sentar reta e firme no sofá, era mais um momento de ‘ss’. Era maior, era um dia de ‘ss’. Sentia falta da sua irmã pela primeira vez em dois meses, ela estava humanamente sozinha numa casa, a única coisa que a acompanhava era uma vela traiçoeira e queimante, e ela já não queria ser envergada pela vontade de chorar que segurara por tanto tempo.
Por muito tempo. Um tempo rasteiro.
Joana foi impulsionada, pegou a vela junto do pote de cerâmica que repousava no sofá. Iria reencontrar aquele livro. Apenas para não chorar.
Enquanto Joana se guiava somente pela intuição, checando os lugares em que imaginava estar o livro, duas criaturas deslizavam por um cômodo assoprando cochichos por seus lábios delgados. Falavam algo sobre um tal livro que queriam para brincar com uma pessoa.
As plumas que as seguiam fugiam de algumas velas para não incinerarem, e elas abriam um armário daquele cômodo deslizo e pegavam um livro, e levavam. Soltaram risadinhas, também sopradas, fazendo as duas parecerem seres asmáticos. Além de malignos, que desta vez realmente eram.
Esguia e rápida, Joana vasculhava todos os cantinhos de seu quarto, primeiro provável lugar onde poderia estar seu tesouro de rimas.
Remexia as prateleiras. Pegava um livro, passava os olhos por sua capa e o colocava de lado. Não era aquele.
Então, pegava outro.
Da capa ela se lembrava bem, era uma capa inesquecível e que havia isto tantas vezes. Pegue todas as lágrimas que Joana já havia chorado, divida o número por cinqüenta lágrimas, mais ou menos, aí estavam quantas vezes ela tinha visto a capa. Umas vinte. Não seria muito difícil se lembrar, e, sim, esquecer.
Era colorida com várias demãos de tinta. Muitas, todas heterogenias, cada uma sobressaltava da outra. Umas eram verde musgo, outras eram pretas, e, umas terceiras, vermelhas. Aqui e ali se via um respingo de tinta, assim como, aqui e ali, as tintas se misturavam formando um tom meio amarronzado. No topo, de branco, o título.
Pegou mais um livro da prateleira, esse era o último, olhou para sua capa. Nada de demãos de tinta, nada de respingos ou de título em branco. E o pôs de volta ao seu lugar.
As criaturas observavam Joana em sua caçada, com umas risadinhas, e com o livro escondido sob suas roupas-pele, umas coisas feito roupas pretas que saiam surgiam de suas peles descoloradas e iam indo e indo pelo ar até desaparecer. Uma delas soprou palavras, numa língua desconhecida, para a outra, as duas riram e a outra balançou sua cabeça afirmativamente.
Elas deslizaram até Joana, que agora remexia com a mesma série de movimentos outra prateleira, arfaram risadas asmáticas e cruelmente derrubaram todos os livros da prateleira sobre a cabeça da garota.
Ela cambaleou inerte a quem havia feito aquilo a ela e inerte a quase tudo ao seu redor. Cambaleou, girou e caiu. Quando recuperou sua consciência, cerca de um minuto depois, olhou ao seu redor e viu um monte formado pelos livros caídos junto dela.
Sentou-se devagar. Massageou a cabeça dolorida e olhou de novo para o monte. Espalhou-os pelo chão do quarto e analisou um por um, nenhum era aquele.
Nenhum.
E não demorou muito, digo, demorou sim, mas sejamos otimistas que nem parece tanto tempo assim, e foi concluído o inquérito do seu quarto. Que nenhum era aquele.
Descobriram suas mãos das roupas que desapareciam como fumaça naquele ar, e fizeram aquele conhecido movimento humano, o aperto de mão.
As duas criaturas. Criaturas asmáticas e sádicas. Apertaram suas mãos de dedos finos e canhestros. E de unhas compridas e esbranquiçadas, assim como ficam as nossas quando falta cálcio, e também quebradiças, como as nossas.
Com seu quarto já tendo sido revistado, desarrumado e arrumado novamente, Joana saiu levando consigo sua vela, e, como papagaios-de-pirata, as duas criaturas roçando em seus calcanhares. Ela ainda sentia o efeito da trapaça, sua cabeça ainda doía e a dor, ao invés de diminuir, parecia aumentar, por culpa dela resolveu tomar um remédio.
Marchou até a cozinha e deixou a vela em seu, agora, pote sobre a mesa.
Abriu as portas dos armários, desfez uma caixa de sapatos na mesa à procura de um remédio de vidrinho escuro. O vidro foi encontrado com excepcional facilidade, em contradição ao livro, Joana o abriu e pegou um copo. Encheu o copo com água, que futuramente não seria mais insípida, e depois pingou umas gotinhas do remédio na água.
Pingaram também umas em sua mão, ela se dispôs a lavá-las, nisso aqueles seres armavam outro trote.
Dessa vez quem ia era a outra coisa, ela chegou perto da mesa e do copo, pegou o vidrinho e deixou espirrar o líquido dentro do copo. Voltou a se postar junto da companheira, e, juntas, as duas assistiram à sua problemática diversão à custa dos outros.
Joana foi de volta à mesa com as mãos umedecidas, passou a mão no copo embebido de remédio, levantou-o e tirou um gole.
Foi uma questão de segundos.
De centésimos, talvez. Para ela cuspir todo aquele gole de volta ao copo.
Pois o remédio em sua quantidade normal já teria um gosto mais amargo que uns limões espremidos juntos, bom, e seu triplo? Era como arrancar a língua de Joana e trocá-la por um limão.
Então, acho que você já deve ter uma noção do que as criaturas fizeram.
Sim, elas riram mais.
E o que Joana fez.
Ela bebeu água, muita água.
E depois tomou o remédio, uma quantidade bem menor do que deveria ser, pois achava que ela tinha exagerado. No fim das contas remédio realmente não fez efeito nenhum.
Parte do Fim.

Sinceramente, não sei se fiz bem ou mal pelo título. Eu criei laços com as Criaturas Asmáticas, cruéis, divertidas, mórbidas e mortas. E também com o nome 'Suplicante Solidão'. Se tudo for de acordo com minha previsão, pretendo escrever umas curtas sobre os nomes que concederam o título a essa história.
E como poderia esquecer? Meu grande agradecimento, pela idéia original da história, uma garotinha que perde seu livro de poesias.:
Djan, amei esta idéia, simplesmente genial! Não sei você, mas fiquei satisfeita com o tosco resultado, espero que eu tenha feito bem. Ah, senhores! Esperemos pela parte dois!, tanto eu quanto vocês.

Meu final feliz

domingo, 11 de novembro de 2007

Não, senhores. Não pretendo que esta seja a minha última aparição por aqui, pelo contrário. Não estranhem o título do post, nada tem a haver com isso. Mas, afinal, sobre o que ele quer dizer? Ah, vocês nem acreditariam se eu apenas dissesse! Finalmente, depois de tanto tempo, consegui terminar uma de minhas curtas histórias! Meu coração exulta entre a alegria e a tristeza! O que mais poderei dizer? Está terminada!

Entre Livros
A teimosia rendeu frutos, sua mãe acabou por levá-la à livraria da Rua das Figueiras desde que ela, como prometido, esperasse até sua volta do mercado. A mãe disse também, além de todos os avisos para ter cuidado e outros mais, que não demoraria muito.
Mas, de nada dera certeza absoluta e a pequena sabia que ela não cumpriria o que havia dito, e se demoraria a voltar a vê-la. Tanto importava. Desde que pudesse comprar o livro onde lera aquele primeiro nostalgiante parágrafo. Estava ótimo.
Entrou na livraria, deu para ouvir o tilintar do sino ao alto da porta, avisando mais uma cliente, apesar de toda a sua distração. Virou para a vitrine envidraçada e viu sua mãe ir embora. Parou por um momento, suspirou, entregou-se.
Correu entre as prateleiras e prateleiras, e sentiu o cheiro do café que o balconista tomava passar flutuando pelo ar. Foi verificando à procura do livro.
Começando pelas estantes de tema Drama, ela esticou-se a fim de enxergar até a última das prateleiras, e depois se abaixou até procurar pelas primeiras. Acabou por se resolver pelas estantes denominadas Suspense, mesmo não tendo certeza do que o livro se tratava.
E passou uns minutos assim, pesquisando nas estantes, pulando de tema em tema. Havia ainda a chance de o livro estar separado, em algum outro dormido lugar, algum lugar para livros mais antigos, coisa que ele era.
Ela levou o dedo à boca, mordeu de leve e tentou calcular melhor onde poderia estar, já nem sabia onde estava si mesma. Remexeu seus cabelos. E ele, onde, então?
Caminhou por mais corredores de uma madeira escura, negra, e que não rangiam. Chãos de madeira costumam a ranger. Tamborilou os dedos nas estantes, assobiou chamando pelo livro. Virou-se de costas e deu de cara com um jovem.
O jovem vestia uma calça jeans e uma blusa social esverdeada, clara, de mangas compridas e presa dentro da calça, formando uns gomos fofos junto do corpo dele. Tinha também um avental verde musgo, longo o bastante para bater nos seus joelhos, o que não era lá muita coisa já que ele era baixo. E o que dava um toque final, uma moldura tortuosamente postada, eram seus óculos retangulares e escorregando por seu nariz ligeiramente alongado.
Ele sorriu macio e perguntou se poderia ajudar.
A garota agradeceu e clamou mais uma vez pelo livro perdido, por favor.
Ele pediu que ela o seguisse.
Os dois se puseram a cruzar mais corredores negros e que cheiravam a café um pouco passado.
No fim, o bibliotecário, que não era o balconista tomador de cafés, e, inclusive, era novo lá, tinha chegado aonde a menina cogitara que o livro poderia estar. A uma grande estante, idêntica às outras brutas e discrepantes, apenas uma pitada maior que elas. Era onde ficava guardada uma coleção de livros antigos, estes que davam destaque ao nome daquela livraria das Figueiras entre os das outras.
A única na cidade com um número significante de livros antigos, livros que diziam se datar da mesma época em que aquelas retorcidas árvores, que decoravam a rua e seu nome, eram jovens. Uma boa fama.
Eles repousaram o olhar nos livros e ela soltou um sorriso de satisfação ao sentir o cheiro empoeirado e doce da conservação daquela discernida estante. Falando algo baixinho como “deixe me ver”, o rapaz colocou-se a fazer o mesmo que a garota.
Distendeu até a última, e permitiu a seus olhos escorrerem até a primeira prateleira.
Apontou mentalmente para cada um dos livros e procurou entre seus títulos e suas laterais aquele especial. Havia os limpado não fazia mais que uma semana e o tinha visto por lá.
Então, a menina o viu encarapitar-se e puxar um livro de uma das prateleiras mais altas. Era aquele o livro que procurava, o jovem entregou em segurança às suas mãos e os dois sorriram.
A garota demorou um pouco para agradecer, ficou observando a capa dura e acinzentada do livro, mas não se esqueceu de agradecer. Não poderia. O jovem fez uma mesura e virou um corredor, sumindo de seu olhar, olhar que havia resolvido se demorar nele. Ela sentiu, por um instante insano, uma estranha atração e curiosidade pelo rapaz, entretanto, não só permitiu como achou melhor que a atração se dissipasse.
Voltou à capa acinzentada, abriu e reviveu as encenações da contadora de histórias, misteriosa e revirante, daquele livro.
Primeiro, ficou ali, de pé, lendo os parágrafos.
Um pouco depois, encontrou apoio numa das fatias de madeira perto dela, encostou-se e continuou lendo.
Quase que uma hora passada, havia se sentado no chão, e de pernas cruzadas lia o livro, focada.
O jovem veio novamente, dando o ar de sua graça, atiçando os olhos da garota. Ela levantou a cabeça, quando ouviu o soar dos sapatos de couro no chão, e viu sua mágica figura ali. Ele só sorriu. E perguntou se queria alguma outra ajuda.
Ela estava no chão há mais de uma hora.
Só poderia precisar de mais algo. Não?
Não, mas foi o que o jovem achou. Ela explicou que esperava por sua mãe para pagar o livro, ele compreendeu e silenciou-se. Os dois se silenciaram e a garota fechou o livro, pregando o número das páginas com o indicador, vagava do livro para o bibliotecário e do bibliotecário para o livro. Vice e versa até se completarem sessenta segundos.
Resolveu juntar umas palavras, formar uma frase e entregá-la a garota, foi o que o bibliotecário fez. Ele falou a ela que já lera aquele livro, e gostara muito. Os dois entraram em concordância e se calaram mais uma oportuna vez. Ele checou o relógio que pendia em seu pulso com um olhar amargo, e informou à garota algo mais amargo ainda.
A livraria fecharia em questão de cinco minutos.
A garota se exaltou e arregalou os olhos, sua mãe ainda não havia chegado. Mesmo? Eles atravessaram a livraria em direção à porta. E ela ficou ali parada, observando pela vitrine.
A espera não foi muito construtiva: sempre que alguma pessoa passava, ela esticava-se, mas nenhumas daquelas fora a sua mãe. Duraram cinco minutos.
O jovem foi até seu lado e perguntou se havia alguma notícia da sua mãe. Ela negou tristemente, queria tanto levar o livro, e sua ânsia aumentava a cada parágrafo. Ele reparou aquilo estampado no rosto da garota, saiu de perto dela e se dirigiu até o lustroso balcão onde ainda estava o homem que gostava de café, tomando outra xícara pesada.
O homem entornou um grande e profundo gole, apoiou-se no balcão e bufou ao ver a figura da garota ainda parada à porta, no mesmo instante ela começou a observá-lo.
O bibliotecário endireitou os óculos numa bizarra preparação para falar com o balconista. Ela conseguiu pegar uns trechos da conversa que foi transmitida em sussurros, o jovem tentava desdobrar o balconista para poderem esperar mais alguns minutos.
Minutos suficientes para a mãe da garota chegar. Foi o que ele disse.
Ela se sentiu lisonjeada ao imaginar que ele estava tentando ajudar aquela pequena e humilde criatura. Sentiu-se lisonjeada, se sentiu corar.
Sorrindo, aproximou-se para mais uma calorosa aparição. Como ele mesmo disse, tinha boas novas, ela poderia esperar mais alguns minutos pela mãe. Entretanto “mais alguns minutos” fora tudo que conseguira, o balconista estava sonolento e aborrecido, mesmo com toda aquela cafeína, e não permitiria muito mais para fechar a livraria.
Ela ficou grata e demonstrou aquilo com as palavras que conseguiu, não muitas. Duas: “muito obrigada”. Para ele, foi o suficiente. E para ela, os minutos também.
Para o livro, não.
Quinze minutos foi o tempo que o homem deu. Apenas quinze nada a mais. Ele se aproximou da dupla que esperava ansiosamente, seus cabelos compridos e negros esvoaçaram-se quando levou a garota para a porta aberta, desculpou-se e disse que ela poderia comprar o livro no dia seguinte, puxou a capa da mão dela.
O bibliotecário observou a garota, deslocada, cruzar a rua e sentar num banco. Ele a observou com uma expressão infeliz, depois o balconista o pôs a trabalhar para fechar a loja. E ele não pode mais observar a garota deslocada.
Ela, por sua vez, concentrava sua mente no livro, e no momento em que o fora tirado dela. Ainda conseguia sentir as folhas castigadas pelo tempo, conseguia ver aquele tom de cinza. E como o balconista as deslizara de suas mãos. Só conseguia, agora, lembrar do cheiro do café, em vez do da poeirenta conservação.
Uma brisa suave e gélida passava entre as folhas da figueira que estava bem acima da menina. Ela foi tornando-se sonolenta, e tornando a pequena também sonolenta. Era tarde, ela estava cansada de tanto esperar.
Apoiou-se no banco e deixou a noite levá-la.
Após ajudar o balconista a fechá-la, o rapaz de óculos tortos, agora sem seu avental verde, se viu deixando a livraria. Carregando uma sacola em sua mão esquerda, viu também o cruel homem ir embora e acenou para ele.
Trancou a porta da livraria com sua chave. Colocou a chave no bolso, e olhou para o outro lado da rua. Ela ainda estava lá, e para sua surpresa, cochilava encolhida no banco de mármore gélido.
Ele foi chegando perto dela, ouvindo o som plástico da sacola junto de seus tornozelos, e a observou bem de pertinho.
Ficaram assim, ele vislumbrava os cabelos e o rosto delicado, ela caia aos poucos em mais fases de sono, até ele perceber que deveria se apressar. Então, delicadamente, sacudiu um pouquinho a garota.
Ela se contorceu no banco, e perguntou o que era, entretanto, ela ainda dormia.
Ele levantou a sacola, entregou em suas mãos, a menina a agarrou cegamente e abraçou-se a ela.
“Para você.”, ele sussurrou.
Beijou sua testa, afastou-se dela. Olhou para os lados. Não havia ninguém. Afastou-se mais ainda, a ponto de já estar no meio da rua de paralelepípedos, virou e começou a caminhar.
O bibliotecário caminhou para longe dela, mas seus olhos não. Eles viram a garota se encolher mais ainda e abraçar a sacola, viram a mãe dela chegar ao longe. Depois, viram a mãe acordá-la. Viram a garota observar a sacola sem compreender o que ocorria. E a viram abraçar a sacola, com mais carinho do que quando dormia.
Seus olhos assistiram a tudo aquilo e contaram para ele. Ele sorriu maciamente, e sentiu o coração se apertar devagarzinho. Passou a olhar para frente, e seguiu sua vida.
Em todo o caminho para casa, a garota passou acordada, dentro do táxi que sacolejava nas ruas de paralelepípedos e de figueiras. Passou pensando em quem haveria dado a ela aquele livro.
Teria sido o balconista por se sentir arrependido por haver tirado-na da livraria?
Ou sua mãe fizera aquilo por puro prazer de deixá-la no suspense da história?
O jovem? Mas, por que ele faria aquilo? Por que compraria o livro para a garota com o seu dinheiro e o daria em troca de nada?
Ela não se lembrava de nada, nem de sussurros, nem de figuras se aproximando com barulhos plásticos. Só da afeição pelo bibliotecário de roupa verde e de seu sorriso macio. Mas, aos poucos a afeição seria esquecida. Por ela.
Não por ele. Ele, sim, se lembraria.
Só que, para o azar do rapaz, a garota só retornaria anos depois àquela livraria, de cabelos curtos e corpo crescido. Para o azar dele, ele não a identificaria. Para o azar dele, ele passaria o resto de suas noites sonhando com aquela pequena, sentindo a brisa daquela noite e o gosto da pele dela.
Fim.
A menina ainda lembra do sorriso macio, que vem de algum lugar.


Ah, senhores! Não sei se me alegro ou me decepciono! Como eu poderia imaginar que o primeiro final seria logo o dessa? Depois de terminá-la senti um gélido vazio e, meu coração, um aperto assim como sentiu o jovem rapaz da história ao abandonar a garota.
Talvez sejam assim que devem terminar todas as histórias. Porque, de certa forma, é sempre assim que elas terminam. Sem fim. E isso nos leva ao tema de minha próxima história: a Morte.
Muito obrigada!

Minha petulância de boneca

domingo, 4 de novembro de 2007

Percebi, hoje, que venho me tornado uma criatura petulante e mimada. Odeio isso. Primeiro, eu odeio pessoas mimadas, está bem que desde novinha venho sendo cuidadosamente tratada e tendo meus desejinhos infantis comprados por meus pais, mas toda essa minha personalidade foi construída e destruída pelas minhas próprias mãos. Como um castelo de areia. E tenho um orgulho ordinário de firmar que tudo que fiz até então faz parte de mim, coisas boas e ruins.
Mas, de que adianta tudo isso se viro alguém que odeio?
Sinto-me como uma rainhazinha segurando suas plumas, toda cheia de orgulho, delicadeza fria, brutalidade pintada de ouro e prata, crueldades?, apenas parte de seu trabalho de rainha. Petulância pura de boneca, é como me sinto. Desculpem.

A Boneca de Porcelana
E ela seguiu, levando consigo um caderno, um bico de pena, seu relógio de bolso e suas luvas brancas, constantemente brancas. Suspirando.
“Não tenho nenhuma idéia”
Sem idéia não haveria a festa, e, sem festa, continuaria triste, observando o sol adentrar por suas janelas e a noite virar manhã, um dia após o outro. Por isso seguiria seu plano, firme, mesmo sentindo aquela dorzinha fina no coração, mesmo sentindo vontade das lágrimas escorrerem face abaixo.
E, lá foi ela, boneca de porcelana, em contraste com a paisagem esfumaçada da cidade, seus saltos faziam um barulho baixo nas pedrinhas da rua, levava seu caderno comprimido nervosamente junto ao busto. O bico de pena, preso entre as espirais do caderno, fazia um barulho tão leve quanto seus passos.
Passava por muitas pessoas, uma vez ou outra tentava pedir uma ajuda, mas todos seguiam direto, sem nem olhar, ou olhando do alto, “frios”, ela disse entre os lábios formando um bico tristonho.
Ajeitou o bico de pena nas espirais, subindo-o, de volta ao começo de sua fuga para fora do caderno, ajeitou a postura, subindo-a, tentando parecer com o resto do mundo frio e passivo, e tentou ajeitar o sapato, tropeçando, de joelhos no chão. Ela largou o caderno no meio da queda, indo ao chão, para deixar os braços livres a apará-la, e sentiu o relógio de prata saltar dentro de seu bolso, assim como seu coração em seu peito. Rapidamente ela se endireitou, ajoelhando-se e limpando as luvas sujas, agora, de terra. As pessoas frias que passavam olhavam sádicas, com risadinhas e sorrisos sádicos. “N... não doeu”, tentou falar para os outros, fingindo ser mais forte que sua camada de porcelana poderia permitir ser. Ninguém disse nada, apenas continuaram passando e olhando sadicamente; seus olhos marejaram, sentia vergonha de si.
Era uma boneca de porcelana, frágil, num mundo rígido e cruel, onde qualquer coisa poderia quebrar lhe o coração e machucar sua pele.
Então, uma jovem se aproximou a passadas rápidas, porém devagar, porém curiosa. A jovem chegou um pouco mais perto dela e lhe estendeu a mão, a boneca de porcelana, espantada, abriu a boca, enxugou as lágrimas e, catando suas coisas do chão, aceitou a ajuda.
“Está bem?”, a jovem perguntou.
Ela vestia um vestidinho vermelho, com muitas rendinhas, e morangos bordados na barra, não era muito adulto e nem muito infantil, seus cabelos escorriam em cascatas de cachos pelos seus ombros.
“Sim.”, ela falou rapidamente, tímida.
“As pessoas daqui não ajudam muito, estão muito ocupadas com suas vidas, acho que a poeira daqui do centro da cidade que meche com o coração delas, deixando-os negros.”, a jovem disse olhando fixamente para ela; a jovem não era do tipo de pessoa que se distrai gesticulando o que fala, e observando ao redor para ver se a censuravam, como se tivesse medo de que achassem errado o que dissesse, do contrário, ela realmente colocava em questão o que pensava, ou, ao menos, fora dessa forma que a boneca imaginou que a Jovem fosse.
“Obrigada. Por reparar em mim e vir me ajudar...”, ela disse baixinho, fazendo bico com sua boca pintada de batom.
“Meio difícil não reparar em você, é muito bonita, pena ser muito inocente, as pessoas podem lhe ferir muito facilmente.”, disse a Jovem.
“Ah. Sim, obrigada...”, ela falou apesar de não entender porque uma pessoa poderia querer ferir outra, ela realmente não compreendia o que era esse sentimento.
As duas pararam por um momento, a boneca ficou olhando para seus sapatinhos vermelhos, tentando achar um bom momento para perguntar à Jovem por uma fantasia; já a Jovem ficou olhando a sua volta, refletindo.
De repente, a Jovem virou-se como se fosse embora, a boneca percebeu e apressada levantou o rosto, com medo de que sua única chance de alguma idéia se esvaísse. E, novamente de forma repentina, a Jovem virou-se de volta a olhar para a boneca e disse, sorrindo: “quer vir comigo até minha lojinha?”, e deu uma piscadela simpática.
A boneca ficou espantada com a atitude doce da garota, como podia ela, tão doce, morar num lugar daqueles?
Ela sorriu e resolveu seguir a Jovem.
Não precisaram andar mais que alguns poucos metros para chegarem à porta de uma lojinha diferente, ela não tinha nome, no lugar do nome havia apenas dois morangos, e era completamente colorida, verde, rosa, vermelho, branco e um azul aqui e ali. Aquela lojinha era tão diferente das outras lojas, escuras e com persianas quebradas, era como achar um anjo achar aquela Jovem e sua loja.
A Jovem pegou uma chave dentro do bolso, perto da barra de seu vestido, e abriu a porta da lojinha, a boneca, sem saber ao certo o que fazer, esperou envergonhada uns instantes e logo a Jovem a convidou cordialmente a entrar.
“Quando estava vindo abrir a lojinha é que a vi.”, e foi até a porta para virar a plaquinha de “fechado” para “aberto” e depois em direção ao interruptor, clareando todos os cantos, impedindo que aquela escuridão das outras lojas se repetisse dentro daquela.
Quando a Jovem acendeu as luzes que ela pode ver o que era vendido lá, na tal lojinha, morangos e tudo relacionado a eles. Havia caixinhas adornadas com morangos, trabalhados na madeira, havia panos de prato com morangos pintados, havia blusinhas com estampas de morangos e botões de morangos, e havia, o que não poderia faltar, morangos, embalados em caixinhas de plásticos, vermelhos e doces, sem o menor sinal daqueles machucadinhos que morangos costumam a ter.
A Jovem pegou uma das caixas de morangos e ofereceu à boneca.
“Desculpe, estou sem dinheiro...”, ela disse baixinho apertando o caderno contra o busto.
“Não, não precisa pagar. Esta loja não é um negócio muito lucrativo, uma vez ou outra me pego comendo os morangos que estão à venda, não há problemas em você comer alguns.”
E, então, a boneca pegou um morango e o levou à boca, estava realmente doce, mais que a aparência poderia dizer. A Jovem sorriu novamente, de um jeito meigo que só ela fazia naquela cidade, e, pegando um morango, disse:
“Eles são uma dádiva, não acha?”, e a boneca fez que sim com a cabeça, respeitando a educação em não falar de boca cheia, especialmente quando está cheia de morangos. “Nessa cidade a minha lojinha é a única que vende morangos, ou, melhor, a única que vende morangos que não são amargos e estragados.” E a Jovem deu uma risadinha, “Morangos são difíceis de cuidar e, se não o fizer bem, eles estragarão com uma tremenda facilidade. As pessoas daqui não acham morangos muito interessantes e não tem paciência para cuidar deles, então, eles amargam. Talvez seja por isso que elas não são muito alegres, morangos deixam nossa vida docinha, fazem bem para a alma, soa estranho, mas é o que eu acho.”
A boneca fez que sim com a cabeça, novamente, parecia mesmo que faltavam morangos na dieta daquelas pessoas, porque, no fundo, a Jovem tinha razão, apenas em comer uns dois morangos a boneca já se sentia bem, apesar dela não saber se era por serem morangos ou por serem aqueles morangos.
“As pessoas dessa cidade parecem que tomam limões...”, ela disse baixinho e fazendo uma cara tristonha. Ela não sentia raiva daquelas pessoas, sentia pena delas por não serem felizes, no fundo, igualmente a razão da Jovem em relação aos morangos, elas não eram mais felizes que a boneca, eram tão tristes quanto.
A Jovem riu, “Você tem razão! Parecem mais que comem limões!” e ofereceu outro morango a ela. As duas se silenciaram, a boneca estava comendo outro morango e a Jovem estava distraída refletindo novamente.
“Você parecia triste e desnorteada no meio daquelas pessoas, há algo em que eu possa ajudar?”, a Jovem disse, finalmente, depois de um silêncio enervante.
A boneca parou por um pouco e pensou em como deveria usar as palavras, da maneira mais delicada possível, afinal a Jovem era muitíssimo gentil.
“Eu estava procurando alguém que me desse uma idéia para a fantasia.”, ela falou imaginando ter escolhido bem.
“Fantasia, qual fantasia?”, a Jovem perguntou parecendo até intrigada, não tola.
A boneca corou, havia usado o artigo errado. Ao invés de um artigo indefinido, o que faria mais sentido para a Jovem que não sabia do que se tratava a tal fantasia, ela usara um artigo definido, como se já tivesse uma fantasia em mente, o que era completamente o oposto da situação.
“Perdão, usei o artigo errado!”, ela se apressou em dizer, exaltada, “Eu gostaria de ter dito ‘uma fantasia’ ao invés de ‘a fantasia’. Eu estava procurando alguém que me desse uma idéia para uma fantasia.”, ela tratou de repetir a frase palavra por palavra, corrigindo o primeiro erro.
“Ah, sim, claro, eu quem entendi errado. Deixe me pensar... uma fantasia?”, e a Jovem sorriu meigamente, se fosse outra pessoa qualquer daquela cidade teria rido dela e da maneira um pouco infantil de corrigir o erro da frase.
A Jovem fez a mesma cara que fazia quando refletia distraidamente, e, da maneira repentina dela, disse: “morango! Você ficaria linda de morango!”
A boneca franziu o cenho, não entendia a mania que a Jovem tinha por morangos, mas acabou sorrindo, talvez ela ficasse bonitinha de morango. E pegou seu caderno, abriu na primeira página em branco, escreveu a primeira idéia: “morango”, a Jovem suspirava enquanto havia voltado a refletir.
“Todavia, não sei se você gosta tanto de morangos quanto eu, então, talvez fosse melhor você escolher algo que demonstrasse mais o que sei coração quer dizer.”, a Jovem disse parecendo meio triste por sua idéia não ser a ideal. As duas pararam para refletir.
“O que... meu coração quer dizer?”, a boneca perguntou baixinho, olhando para os sapatos vermelhos, meio tristonha. A boneca não sabia o que seu coração queria dizer, ela não sabia porque tudo que ele queria, naquele momento, era uma companhia melhor que a solidão, e era só isso que ele dizia, todo o tempo, tentando explicar por dores fininhas e pontadas que parecia matá-lo.
A Jovem reparou no rosto infeliz da boneca voltado para o chão.
“M... mas eu não sei o que ele quer dizer...”
Então, repentina, como sempre, a Jovem se aproximou e abraçou a boneca delicadamente, para não quebrar sua porcelana. A boneca sentiu seu coração aquecer e dizer algo, baixinho, bem baixinho. Sem a solidão machucando-o, ele conseguia falar, mas de uma maneira quase muda, estava muito ferido para se esforçar.
“Você irá ouvi-lo.”, e foi só isso que a Jovem soube dizer, nem ela mesma saberia ao certo como agir naquela situação e sentia muita pena de ver a boneca assim, pois, sendo inocente como ela era, seria uma tarefa muito complicada e desventurada ouvi-lo claramente.
As duas ficaram abraçadas por um tempo, e, então, a boneca entendeu que era melhor ir, procurar pelo o que seu coração queria dizer. A Jovem desfez o abraço que envolvera a boneca, deu um passo atrás, e elas se despediram. A boneca voltou às ruas da cidade, olhando para dentro da loja, onde lá sorria a Jovem. Fez um aceno e se foi.
A Jovem ficou lá observando o curioso contraste daquela criatura de roupa branca com o cenário de pessoas de ternos pretos, sorrindo de maneira meiga, sorrindo de maneira solitária a Jovem. Talvez a boneca nunca soubesse, mas a Jovem sabia que sua solidão era tanta quanto a que ela sentia, entretanto a Jovem a combatia de sua forma, comendo doces morangos todos os dias, uma mania que só ela compreendia.
Fim

Aí está uma das que gosto. Nem talvez pelo próprio texto. Minha mãe aprecia muito a Boneca. Ainda está por vir a parte dois da história, entretanto, todavia, no entanto, não sei se isso é um bom aviso ou mais uma desgraça. Além do que, se eu terminar a segunda parte. E, na verdade, a primeira...
Comecei a escrevê-lo no PDE, foi meu primeiro dia lá, disso bem lembro-me. Agora, o PDE se tornou uma segunda casa para mim, só que não posso mais me dar ao luxo de escrever por lá, gosto mais de ter trabalhos para fazer e trabalhos feitos. Enfim, comecei a história de uma outra parte, fiquei de terminar o começo por mais outros dias, só que isso ficou apenas na promessa. A segunda parte ganhou o desonroso título de primeira e, então, cá estamos com a sinopse:
"Ele conta a história de uma garota tentando arrumar uma fantasia para uma festa de quinze anos. Entretanto, a garota é tão inocente e delicada que, para encontrar sua fantasia ideal, tem de passar por uma série de provações."
Muitíssimo obrigada!